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Atualizado em sexta-feira, 17 de março de 2017 - 22h59

Lava Jato completa três anos de investigações

Já foram feitas 198 prisões ao longo das 38 fases da operação
No total, R$ 10,1 bilhões já foram recuperados pelos acordos de colaboração / Marcello Casal Jr./Agência Brasil No total, R$ 10,1 bilhões já foram recuperados pelos acordos de colaboração Marcello Casal Jr./Agência Brasil

No dia 17 de março de 2014, há exatos três anos, a Polícia Federal (PF) anunciava a prisão do doleiro Alberto Youssef e mais 23 suspeitos de crimes financeiros na operação batizada de “Lava Jato”.

Após esse tempo e com a revelação da corrupção no Brasil em dimensões inéditas, seria normal que os órgãos de investigação – PF e MPF (Ministério Público Federal – fizessem um balanço conclusivo prevendo o fim da operação, que já teve 38 fases.

Mas em conversas de ambas as instituições com o Metro Jornal – ao lado da Band TV e da BandNews FM –, os investigadores falaram pouco do passado: o assunto foi o que ainda falta ser feito. Por essa razão, o jornal quebra uma tradição nas retrospectivas da Lava Jato que são feitas a cada fim de ano e cada aniversário da investigação. Em vez de relembrar o que já passou, o jornal elenca sete pendências e preocupações que estão na cabeça da força-tarefa.

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A principal delas é a delação da Odebrecht. Após quase um ano de negociação, o acordo foi fechado, homologado e gerou, nesta semana, o pedido de 83 inquéritos contra detentores de foro privilegiado e 211 outras investigações pelo Brasil. A chamada ‘segunda lista de Janot’ foi só o começo. PF e MPF preveem um 2017 intenso de trabalho com os ‘filhotes’ da delação: no STF (Supremo Tribunal Federal), os novos inquéritos devem atravancar a mesa do relator Edson Fachin, o que ameaça a agilidade das apurações. Pelo país, espera-se uma enxurrada de novas denúncias em âmbito federal, estadual e municipal.

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“Eu acho que vai dar frutos por muitos anos”, aposta o delegado da PF Igor Romário de Paula, que não se arrisca a dizer quando a Lava Jato acaba. “Eu já cometi esse erro três vezes: em três anos falei que a operação ia acabar e ela não acabou. Qualquer expectativa de fim da investigação é pura especulação”, diz.

 

Veja também na reportagem do Jornal da Band:


Frutos da delação da Odebrecht

O ministro do STF Edson Fachin pode levantar, nos próximos dias, o sigilo sobre os 320 pedidos da ‘Lista de Janot 2’ baseados na delação da Odebrecht. Outras empreiteiras, como a Camargo Corrêa, negociam acordos semelhantes, o que vai gerar investigações espalhadas pelo Brasil. “Eu vislumbro hoje a Lava Jato como um verdadeiro nascedouro de provas”, diz o procurador do MPF Roberson Pozzobon. “[Espera-se que] os ilícitos sejam esclarecidos, mas não só os ilícitos federais, mas também os ilícitos municipais e estaduais”, projeta Pozzobon.

Fachin
Marcelo Camargo/ABr

Foro privilegiado 

PF e MPF concordam: embora não se deva acabar com o foro privilegiado, o ideal seria diminuir o número de autoridades que o detêm, para evitar a sobrecarga de casos no STF. “O que acontece é que um volume muito grande das investigações é paralisado em primeira instância [o juiz Sérgio Moro, na Lava Jato], vai para Brasília, acaba abarrotando os tribunais e não tendo a agilidade que se espera”, lamenta o delegado da PF Igor Romário de Paula.

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Ataques dos investigados 

Às vésperas da revelação da delação da Odebrecht, vários políticos têm falado sobre a “inocência” do caixa 2 perto de outros crimes. Para os investigadores, o caixa 2 quase sempre inclui outros delitos, e esse discurso visa a escapar do impacto das denúncias. “É corrupção, sim”, crava o delegado da PF Maurício Moscardi. “Nós temos um embate no Congresso entre medidas que poderiam solucionar essa corrupção endêmica e medidas que serviriam para deixar tudo como está”, diz o procurador Pozzbon, do MPF.

Congresso Nacional
Agência Brasil

O perigo da prescrição

Em audiência ao juiz Sérgio Moro, o empreiteiro Emílio Odebrecht reconheceu que o grupo paga via caixa 2 há muitas décadas. Casos ocorridos há mais de 16 anos, porém, devem prescrever assim que vierem à tona. “Nós pertencemos a uma geração que foi criada escutando piadas no Brasil sobre corrupção”, analisa o delegado Dante Pegoraro, da PF, novato na força-tarefa da Lava Jato.

Recursos e efetivo 

Embora desconfiem do Congresso, os investigadores afirmam que o governo federal nunca tentou [nem com Dilma, nem com Temer] parar as investigações enfraquecendo a força-tarefa. Garantem que o apoio material é dado e pode aumentar. “Vamos fazer da melhor forma possível e, se necessário, solicitando novos recursos e novo pessoal”, diz o procurador Roberson Pozzobon, do MPF.

Foco em Brasília 

Embora casos como o do ex-presidente Lula ainda estejam sob responsabilidade do juiz Sérgio Moro, a força-tarefa no Paraná deverá perder protagonismo. “É natural que tenhamos um número menor de fases ao longo deste ano. É essa mudança de eixo: a tendência é que os casos mais relevantes tenham origem a partir de Brasília”, projeta o delegado Igor Romário de Paula, da PF.

moro
Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Lava Jato ‘tipo exportação’ 

A Odebrecht confessou ter pago propinas em 11 países além do Brasil, relato que se soma a outros casos de corrupção internacional levantados pela Lava Jato. A tendência é que essas investigações avancem pelo mundo em 2017. “É um dado que não nos orgulha: exportar corrupção”, constata o procurador Roberson Pozzobon, do MPF.

Números

- 198 prisões foram feitas ao longo das 38 fases da Lava Jato. Hoje são 20 detidos em Curitiba, entre a sede da PF e o Complexo de Pinhais;

- 156 delações premiadas foram feitas, sendo que metade, 78 delas, são parte do “pacote” fechado pelos executivos da Odebrecht;

- 27 processos já foram julgados por Sérgio Moro, resultando em 125 condenações, que somam 1.317 anos de prisão nas sentenças;

- R$ 10,1 bilhões já foram recuperados pelos acordos de colaboração, sendo R$ 757 milhões que estavam escondidos no exterior.