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Atualizado em domingo, 19 de março de 2017 - 16h05

Executivo da BRF tinha acesso a sistema, diz PF

Segundo juiz, Roney Nogueira dos Santos influenciava e escolhia fiscais
Delegado Maurício Moscardi durante coletiva sobre a Operação Carne Fraca / Rodolfo Buhrer/Fotoarena/Estadão Conteúdo Delegado Maurício Moscardi durante coletiva sobre a Operação Carne Fraca Rodolfo Buhrer/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Grampos da Polícia Federal no âmbito da Operação Carne Fraca, deflagrada nesta sexta-feira (17), revelam que funcionários da BRF chegavam a acessar, dentro do Ministério da Agricultura, sistemas de emissão de certificados que atestam a qualidade de produtos. As investigações miram agentes de fiscalização das Superintendências de Minas e Goiás, vinculadas à pasta.

 

A decisão do juiz federal Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Criminal Federal de Curitiba, base da Operação Carne Fraca, que decretou prisões preventivas, temporárias, conduções coercitivas e buscas e apreensões contra os investigados, revela que o gerente de Relações Institucionais e Governamentais da Brasil Foods (BRF S/A) Roney Nogueira dos Santos ‘influencia de escolha e substituição de fiscais para as unidades da empresa à liberação de unidades às vésperas de serem interditadas’.

 

Leia: Diretor da BRF é preso no aeroporto de Guarulhos

 

A fim de exercer e manter influência sobre as fiscalizações, o executivo, segundo o juiz, ‘alcança dinheiro a servidores públicos, remunera diretamente fiscais contratados, presenteia com produtos da empresa, se dispõe a auxiliar no financiamento de campanha política e até é chamado a intervir em seleção de atleta em escolinha de futebol’.

 

As gravações da Polícia Federal autorizadas pela Justiça dão conta de diálogos entre Roney Nogueira dos Santos e o fiscal do Ministério da Agricultura Daniel Gouvêa Teixeira, denunciante do esquema, sobre a existência de fiscais da pasta que deixavam funcionários das empresas ocuparem suas mesas no órgão público, utilizando senhas de acesso para a emissão de documentos.

 

Em um áudio interceptado, o denunciante diz ao empresário que uma funcionária ficou sozinha, em uma sala do Ministério, manipulando os documentos - a senha foi fornecida por um servidor:

 

DANIEL TEIXEIRA: Não, não. Ela ficou numa sala lá sozinha fazendo. Entendeu?

 

RONEY: Ah tá.

 

DANIEL TEIXEIRA: Porque, ele foi atender outra empresa, “não, você vai fazendo aí”. Abriu o sistema e deixou ela trabalhando no sistema. Aí foi o que eu falei: não, não é assim. Nem acompanhando pode. Entendeu? O problema todo é o seguinte, ela tá acostumada a vir aqui, né, senta ali, faz as coisas no sistema logada como ele. Ele dá a senha dele pra ela trabalhar. Isso é que é foda. Até o nosso sistema. E aí aprova tudo, sai com tudo aqui aprovado. Isso é uma vergonha, isso. E aí ontem, como tinha mais gente: “não, não, vai fazer ali na outra sala”, aí tirou o estagiário do computador e botou ela pra sentar e trabalhar no computador do estagiário.

 

RONEY: Entendi.

 

DANIEL TEIXEIRA: Aí logou lá o sistema pra ela.

 

RONEY: É, daí é complicado né.

 

DANIEL TEIXEIRA: Pô, cê imagina. Nem pode.

 

(…)

 

DANIEL TEIXEIRA: Não, não precisa, não precisa se desculpar, não precisa de nada disso. Ela fez, por que tá acostumada a fazer, por que dão liberdade dela fazer isso. Só que não pode. Entendeu? Aí chegou no cúmulo do ridículo de até logarem o sistema pra ela e deixar ela sozinha trabalhando numa sala. Por muito menos, nego já foi demitido em Brasília, lembra que o cara tinha um assessor lá dentro do DIPOA, dentro da sala do diretor do DIPOA, a JBS? Tinha. Então. Então assim, pra evitar esse tipo de coisa e envolver ela e piorar ainda mais a situação.

 

RONEY: É, tá certo.

 

DANIEL TEIXEIRA: Porque daqui a pouco nego abre um processo aqui e vai chamar ela aqui pra perguntar, ela vai falar, não, eu sempre fiz assim, faço assim, faço assado, não sei o quê, tá, tá, tá e essa merda cai na mídia, vai foder mais ainda pra quem faz isso. Entendeu?”

 

O gerente de Relações Institucionais e Governamentais da Brasil Foods (BRF S/A) Roney Nogueira dos Santos foi preso preventivamente na Operação Carne Fraca.

 

 

Neste sábado, a BRF soltou um comunicado global. Saiba mais aqui.

 

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