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Atualizado em quinta-feira, 18 de maio de 2017 - 22h42

Temer sabia que JBS tentou comprar procurador

Joesley Batista, dono da empresa, revelou tentar atrapalhar as investigações; presidente disse “tem de manter isso” sobre Eduardo Cunha
Temer foi gravado em conversa com o empresário Joesley Batista, dono da JBS / Mateus Bonomi/Agif/Estadão Conteúdo Temer foi gravado em conversa com o empresário Joesley Batista, dono da JBS Mateus Bonomi/Agif/Estadão Conteúdo

O STF (Supremo Tribunal Federal) divulgou nesta quinta-feira o conteúdo do áudio (ouça abaixo) que o empresário Joesley Batista obteve em conversa com o presidente Michel Temer (PMDB), no último mês de março. Em um dos trechos, o dono da JBS evidenciou que havia infiltrado um procurador nas investigações da Lava-Jato na Justiça Federal.

O procurador da República Ângelo Goulart Villela foi preso nesta quinta-feira, 18, sob suspeita de vazar investigações para a JBS. Ângelo Goulart Villela era membro da força-tarefa da Operação Greenfield, que investiga rombo bilionário nos maiores fundos de pensão do País.

Veja no Jornal da Band


Ouça o trecho em que o empresário revela ter comprado o procurador


Durante a conversa, o empresário disse a Temer. "Eu tô meio enrolado aqui, né? No processo assim. Isso, isso. Investigado, não tenho ainda denúncia", seguiu Joesley em referência ao fato de que ainda não há acusação formal contra ele.

Joesley prosseguiu. "Aqui eu dei conta de um lado do juiz, dá uma segurada, do outro lado do juiz substituto, que é um cara que..."

"Tá segurando os dois?", perguntou Temer.

"Segurando os dois", respondeu o empresário.

"Ótimo, ótimo", respondeu o presidente.

Joesley confidencia. "Eu consegui o tal do (...) dentro da força-tarefa que tá, também tá me dando informação e eu lá que eu tô para dar conta de trocar o procurador que está atrás de mim. Se eu der conta, tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é que dá uma esfriada até o outro chegar e tal. O lado ruim é que se vem um cara com raiva, com não sei o que..."

O empresário continua. "O que tá me..."

"Ajudando", completa Temer.

MAIS


Clique e ouça a íntegra do áudio de cerca de 38 minutos divulgado pelo STF



"O que tá me ajudando tá bom, beleza. Agora o principal que (...) tá me investigando. Eu consegui colar um no grupo. Agora eu tô tentando trocar...", relata Joesley.

"O que está...", diz Temer.

"Então está meio assim. Ele saiu de férias até essa semana saiu um burburinho", conta o empresário.

Joesley diz. "Eu tô me defendendo aí."

(...)

"Tô fazendo R$ 50 mil por mês", relata Joesley.

"Pro garoto", diz Temer.

"Pro rapaz (...) me dar informação", afirma o empresário.

Goulart era integrante da equipe do vice-procurador geral Eleitoral, Nicolau Dino, e recentemente estava cedido à força-tarefa das operações Greenfield, Cui Bono e Sépsis, que apura crimes relacionados à JBS. Joesley Batista e outros delatores da JBS teriam entregado provas de que o procurador repassou dados sigilosos aos investigados.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu o afastamento de Ângelo Goulart Villela de suas funções no Ministério Público Federal, determinou também sua exoneração da função de assessor da Procuradoria-Geral Eleitoral junto ao TSE e revogou a designação para atuar na força-tarefa da Operação Greenfield.

Fustigado

Temer afirmou na conversa com o empresário que estava sendo "fustigado" por Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, preso em Brasília.

"Queria te ouvir um pouco presidente, como tá nessa situação toda, Eduardo, não sei o que, Lava-Jato", declarou o empresário. "O Eduardo resolveu me fustigar. Você viu que eu não tenho nada a ver com a defesa. O Moro (juiz) indeferiu 21 perguntas dele que não tem nada a ver com a defesa. Era pra amedrontar. Eu não fiz nada", declarou Temer, antes da gravação ficar inaudível.

As perguntas barradas por Moro teriam sido formuladas por Cunha para pressionar Temer.

"Tem que manter isso"

Joesley sugeriu no áudio que estaria fazendo tudo para manter Eduardo Cunha "de bem". "Eu estou lá me defendendo. Como é que eu.. o que é que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora. Eu tô de bem com o Eduardo, ok...". Temer respondeu: "Tem que manter isso, viu...".

Apoio do Congresso

Temer também falou nos áudios sobre a importância de ter apoio no Congresso para tentar aprovar as reformas. "Primeiro que você sabe que eu tô fazendo dez meses. Parece que foi ontem, né? Parece que foi ontem e parece uma eternidade, as duas coisas. Segundo que tem uma oposição muito rasa, uma oposição horrível. No começo, eles lançaram: 'Golpe, golpe, golpe'. Não passou. Aí 'a economia não vai dar certo'. Começou a dar certo. Então, os caras estão num desespero. Tem que ter apoio no Congresso. Se não tenho apoio do congresso, tô ferrado."

Entrou livre


Ouça: dono da JBS afirma ter entrado no Jaburu sem ter se identificado

 

Resposta de Temer

Em nota divulgada após a divulgação dos áudios, Temer afirmou que não contestou os empresários Joesley e Wesley Batista, donos da JBS, porque não acreditou na veracidade das informações de que ambos tinham apoio garantido de juízes.

Íntegra da nota:

O presidente Michel Temer não acreditou na veracidade das declarações. O empresário estava sendo objeto de inquérito e por isso parecia contar vantagem.

O presidente não poderia crer que um juiz e um membro do Ministério Público estivessem sendo cooptados.

Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República