Meu pai

Meu pai me deixou a maior de todas as heranças de nunca pedir nada para ninguém, nem desculpas, e por isso jamais dar motivo para chegar a elas

Sabe que senti uma baita saudade do seu Vicente. Saía cedo de casa, era porteiro da Secretaria da Fazenda em Ribeirão Preto. Quando sobrava tempo, vendia bilhete de loteria na rua, gastando sola de sapato e, se ficasse muito ruim, crise para pobre é sempre, fazia bico de barbeiro – e bom, claro que eu era cobaia e de vez em quando até gostava do corte novo.

Trabalhou até o dia de sua morte, com 67 anos. Deu um beijo no Joel, único neto que conheceu e amou muito, levava comida para a gente a pé e eram quase 30 quilômetros ida e volta, mas se despediu da gente e da vida com um infarto fulminante.

Partiu na vida como chegou, falando pouco, sem dinheiro, poucos amigos, muito humilde, e fiquei triste em não ter dito a ele o quanto o amava; na época, eu também falava pouco.

Meu pai me deixou a maior de todas as heranças de nunca pedir nada para ninguém, nem desculpas, e por isso jamais dar motivo para chegar a elas. Deixou para trás uma vida honrada.

Como eu senti saudades dele neste domingo! Chorei um tempo sozinho lembrando do cara de roupa surrada, mas sempre bem passada e limpa pela minha mãe, que costurava bola para ajudar o Vicentão a criar eu e minha irmã, Celia. Foram uma infância e uma juventude plenas de amor e com muita dificuldade, mas até por isso uma união que reforça a briga pela sobrevivência. Acho que casei cedo porque sentia que ele partiria cedo.

Eu te amei e te amo muito, meu Pai. Espero que os que ainda têm os seus perto possam ter passado um belo dia ou então lembrado com carinho daqueles que com certeza estão ao lado de Deus torcendo pela gente.

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