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Atualizado em segunda-feira, 20 de julho de 2015 - 16h40

Você já ouviu falar em floresta de capoeira?

As florestas secundárias podem servir bem na luta para preservar o patrimônio ambiental do Brasil
 / Divulgação Divulgação

Na região Amazônica as florestas secundárias, também chamadas capoeiras, estão aumentando em extensão e importância devido ao constante desgaste ocasionado pelo homem. O que são as florestas secundárias?

São floresta ou matas resultantes de um processo natural de regeneração da vegetação, em áreas onde anteriormente houve corte raso da floresta primária. Nesses casos, quase sempre as terras foram temporariamente usadas para agricultura ou pastagem, com uma grande perturbação do meio, seja com fogo, corte de madeira ou ventos, e a floresta renasce espontaneamente após o abandono destas atividades.  Diferencia-se de uma floresta primária, por esta não ter sofrido tais interrupções.

Também são consideradas secundárias as florestas muito descaracterizadas por exploração madeireira irracional, queimadas ou por causas naturais, mesmo que nunca tenha ocorrido corte raso e que ainda ocorram árvores remanescentes da vegetação primária.

De acordo com Adrian Barnett, doutor em Antropologia Biológica e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) não existe uma floresta secundaria típica na Amazônia. “A composição e ecologia atual de todas as florestas secundárias é resultado da composição inicial, e os tipos de impactos antrópicos e naturais que acontecem, suas durações e intensidades. Porque a composição das comunidades vegetais e animais podem variar muito entre uma área e outra, e por causa das variações genéticas que pode existir, ainda se temos uma série de impactos idênticos em duas áreas, às mudanças não resultam em comunidades idênticas”, disse.

Estudando as comunidades ecológicas e os processos de composição no meio Barnett afirma que, “podemos falar que é importante não subestimar os valores de florestas secundárias. Para muitos animais não importa as mudanças, por exemplo, a composição das espécies de árvores prova que sabemos o que aconteceu. Isso, é porque ainda não podemos perceber todas as interações ecológicas que estão acontecendo, podemos perceber as mudanças em composição, de espécies de árvores, por exemplo.

Macaco guariba (Foto: Divulgação)

Macaco guariba (Foto: Divulgação)

O pesquisador acredita ainda que estas mudanças serão percebidas pelos animais também. “Para algumas populações de guaribas em fragmentos, por exemplo, se existem as mesmas árvores que eles usavam anteriormente para se alimentarem e como dormitórios, não importa as outras mudanças, isso é irrelevante para eles, quase inexistente. Nada da teia ecológica deles mudou”, falou.

Flexibilidade e Adaptação

Se a fauna existente na floresta Amazônia tem a oportunidade de adaptação, eles irão se adaptar a floresta secundária. A ausência de caça é fundamental para conservação. Animais podem ser bem flexíveis em seu comportamento e se adaptar a uma grande diversidade de ambientes e desafios da disponibilidade de recursos, mas eles não podem conseguir se proteger. Existem florestas na Mata Atlântica onde a defaunação é quase completa. Não tem mais os mamíferos ou pássaros de grande ou médio porte.

“As guaribas também são flexíveis e, se mudou a composição da floresta, eles irão mudar sua dieta para se adaptarem as trocas. Existe um exemplo extremo em Belize, longe da Amazônia é verdade, mas ainda relevante, onde teve muito desmatamento numa área que existia mais macacos que árvores e a maioria das guaribas negras da região foi forçada a se adaptar a uma vida no chão. Também tem outros extremos como alguns remanescentes minúsculos das florestas da Mata Atlântica no nordeste onde tem agora um número tão pequeno de árvores nativas com frutos, que os macacos se sustentam quase exclusivamente com goma. Uma mudança radical na dieta, mas eles conseguem sobreviver”, atestou Barnett.

Pesquisas realizadas, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) mostrou que nessa situação de defaunação, mesmo com espécies resistentes e flexíveis, os sistemas deles de dispersão de sementes, pode ser muito perturbado. Muitas vezes os frutos simplesmente caem no chão, embaixo das árvores ‘mães’, onde elas são atacadas por besouros. Os besouros adultos ganham muito com isso, pois encontram um tapete de frutos onde eles podem desovar, mas é péssimo para as árvores, porque os insetos polinizadores não conseguem fazer a dispersão. A longo prazo, isso é mal para os polinizadores, porque eventualmente, sem regeneração das árvores jovens, as fontes de alimentação deles desaparecerão também.  Pode-se visualizar tais florestas nesse estado de perturbação como ‘zumbis ecológicos’, pois tornam-se funcionalmente mortas, mas ainda de pé.

“Aqui em Manaus, temos muitos buritizais dentro dos limites da cidade, e eles estão com uma grande riqueza de pássaros, incluindo papagaios, tucanos e vários tipos de morcegos que, contra a opinião popular, não incomoda ou ameaça ninguém. Também temos o famoso mico de Manaus e o sauim-de-coleira, o animal naturalmente é um especialista das margens de florestas ao longo de rios e em clareiras. O animal está com uma distribuição natural bem restrita, porém, considerado altamente ameaçado com extinção, mas por causa de sua ecologia está adaptado à cidade e suas florestas antrópicas”, disse Barnett.

Preservar é fundamental

As florestas secundárias podem servir bem na luta para preservar o patrimônio ambiental do Brasil, mas devemos pensar nelas como um auxiliar na conservação das florestas primárias, e não como um substituto. Há espécies com a flexibilidade de sobrevivência em florestas simplificadas e alteradas, mas igualmente, há algumas que precisam do ambiente criado com todas as interações complexas para viver.

Pesquisas realizadas pelo Projeto de Fragmentos, do Inpa descobriram que, eles podem funcionar como pontes entre uma área de floresta primaria e outra. Espécies de pássaros, por exemplo, que nunca conseguirá viver ou reproduzir em florestas secundaria, podem usar esse tipo de cobertura para sua dispersão.  Barnett explica ainda que as populações de espécies que precisam dos ambientes específicos das florestas primárias podem manter conexões populacionais via habitats que, à primeira vista, pode não parecer ser útil para eles. “Fui criado na Inglaterra, onde quase não temos mais exemplos da cobertura florestal na forma original. Então, estou habituado à ideia que florestas bem impactadas, podem funcionar como bons lugares para plantas e animais selvagens e também do valor deles fornecendo serviços ecológicos de graça como filtrar água, proteção de íngremes, contra erosão do solo e tudo. Mas devo enfatizar que existem muitas espécies que não toleram os sistemas simplificados e por isso devemos preservar, salvar as florestas intactas e as não perturbadas também”, afirmou.

Existem espécies que nunca se adaptarão às florestas secundárias, espécies que precisam de grandes extensões de mata e sem o habitat adequado serão extintas.