BandNews FM BH
Nativa FM 103,9
Tamanho de fonte
Atualizado em quinta-feira, 22 de junho de 2017 - 09h34

Falta de recurso inviabiliza desenvolvimento de vacina

Pesquisadores da UFMG pedem R$ 300 mil para continuar testes em substância que combate dependência química

Trezentos mil reais: valor infinitamente menor ao que foi gasto pela Assembleia Legislativa em 2015 com o auxílio-moradia dos deputados estaduais, que ficou em R$ 1,7 milhão. A cifra, que é praticamente o que a Cemig desembolsa anualmente por dois de seus conselheiros administrativos, seria suficiente para dar continuidade a um estudo da UFMG que desenvolve uma vacina para prevenir e tratar o vício em cocaína – doença que afeta pelo menos 29 mil pessoas na capital.

 

De acordo com o pesquisador e químico da Universidade, Ângelo de Fátima, as tentativas para buscar a verba junto às agências de fomento começaram em agosto do ano passado, sem sucesso. “Estamos em uma etapa do projeto em que não conseguiríamos avançar sem os recursos, porque essa etapa é extremamente importante por ser uma fase em que a vacina será testada nos seres humanos”, explicou o especialista.

 

Em uma audiência na Assembleia, o diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado), Paulo Sérgio Lacerda, contou que existem pelo menos 30 projetos de combate à dependência química financiados pela entidade. Porém, cada um deles recebe cerca de R$ 33 mil, insuficiente para o avanço do estudo na UFMG – o recurso total para a área é de R$ 1 milhão. “Acaba sendo bastante desestimulante, já que estamos parados e em uma fase importante da pesquisa. É difícil competir com outros países quando nos deparamos com problemas de investimento, sem ter muito o que fazer”, desabafou o farmacêutico Leonardo da Silva, que participa da pesquisa.

 

A expectativa dos estudiosos é conseguir dinheiro com a abertura do edital do Programa de Pesquisas para o SUS, que deve ser lançado nas próximas semanas.

 

Inibindo a cocaína 

Conforme as pesquisas, a vacina poderia auxiliar os tratamentos para os dependentes da cocaína, reduzindo a possibilidade de recaídas. “A substância que desenvolvemos estimula a produção de anticorpos contra a cocaína, impedindo ou minimizando que ele chegue até o cérebro. Com isso, o usuário percebe que a droga não dá mais o mesmo efeito e desiste”, afirmou Ângelo de Fátima.

 

Esse tipo de pesquisa não é novidade e, segundo o pesquisador, há três frentes no exterior trabalhando na mesma área, mas os resultados obtidos na UFMG até aqui permitem estimar o lançamento de um produto de aplicação maciça dentro de dois a três anos. “A tecnologia desenvolvida é brasileira e como não temos que importar, poderíamos oferecer por um custo menor”, finalizou

 

O aposentado Rogério da Cruz Vieira, que já foi viciado em cocaína e crack por mais de 30 anos, dá cursos de prevenção contra as recaídas nos centros de internação. Favorável à continuidade da pesquisa, ele conta que a vacina serviria como uma escada para a continuidade do tratamento. “Ela seria muito importante dentro de um processo de recuperação, já que cortaria a vontade e posteriormente o prazer em se usar a droga. E a recaída é o principal desafio nesse processo, já que quando o usuário coloca fim à abstinência, o efeito ao se usar novamente é muito maior”, argumentou.