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Atualizado em sábado, 11 de fevereiro de 2017 - 10h50

ES: como o caos se instalou tão rápido no Estado

Clima de insegurança dividiu capital capixaba, com moradores recolhidos em suas casas e onda de saques
Consumidores lotaram supermercados para estocar alimentos / Wilton Júnior/Estadão Conteúdo Consumidores lotaram supermercados para estocar alimentos Wilton Júnior/Estadão Conteúdo

A paralisação geral da Polícia Militar no Espírito Santo mostrou uma Vitória dividida: de um lado, cidadãos entrincheiraram-se para evitar a onda de violência que deixou mais de 120 mortos na região metropolitana da capital em uma semana; do outro, parte da população aproveitou o vácuo na segurança pública para cometer uma onda de saques.

Embora tenha melhorado no ranking da violência últimos anos, o Espírito Santo ainda é o 8º Estado brasileiro com maior taxa de homicídios, como apontou Atlas da Violência 2016, levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FPSP). Há também a desigualdade alta na região, que vem sendo combatida com sucesso, mas ainda está longe de uma solução – no ano passado, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) apontou avanços de oito municípios capixabas em saúde, educação, proteção de crianças e adolescente, e as cidades receberam um selo de reconhecimento pelo trabalho.

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Para o  analista criminal Guaracy Mingardi, integrante do FPSP, a explicação para a rapidez com que o caos que se instalou no Espírito Santo vai além da questão da desigualdade e violência históricas na Estado, embora estes fatores sejam determinantes para o cenário alarmante.

“Isso é relativamente comum [de acontecer nestes casos]. Na década de 70 teve um blecaute em Nova York. Uma noite. A cidade foi saqueada, virou um caos tremendo. Falta de luz, não era falta de polícia”, lembra. O fato mencionado por Mingardi aconteceu em 1977, quando, em um momento de crise econômica na cidade americana, milhares de lojas foram saqueadas e os prejuízos estimados em centenas de milhões de dólares.


Galeria: as fotos dos dias de medo no Espírito Santo“Parece que nós estamos em um momento que as grandes urbes têm este problema: uma questão importante que muda desarranja todo o resto. E a polícia é essencial para isso: é [ela que controla] o trânsito, a segurança, o atendimento das ocorrências”, analisa Mingardi.

“Agora, nos locais onde existe maior concentração de riqueza, é mais provável que este cenário [de caos] aconteça, porque com mais concentração de renda existe  o extremo oposto: você tem os desprovidos de tudo”, acrescenta o analista criminal.

Saques

Enquanto condomínios da grande Vitória contratavam segurança extra para se prevenirem de assaltos, moradores de bairros residenciais de classe média também organizavam barricadas e grupos para se revezarem vigiando suas ruas. Muita gente correu aos supermercados para abastecer a casa e não ter que sair mais.

No outro extremo, pessoas que não ganham a vida no mundo do crime aproveitaram a falta de segurança para cometerem saques em massa em lojas da capital capixaba.

“Essa história de se barricar é relativamente comum também. Em situações de crise você quer ficar em um local em que possa se proteger e aos seus. Agora tem outros que já vivem praticamente na rua, saem o tempo todo. Quem mora nos locais mais pobres não tem este lugar para se barricar todo”, afirma Guaracy.

“O cidadão pobre pensa: vou fazer um saque. Roubar é mais difícil. Mesmo um cara que trabalhou a vida inteira e ficou desempregado não consegue sair pra roubar. O saque é outra coisa, é impessoal”, acrescenta.

Insegurança generalizada

Para o professor Hélio Deliberador, do departamento de Psicologia Social da PUC-SP, há também o fator de como cada pessoa encarou a crise.

“Existe uma situação de fato, que é a greve dos policiais. Isso traz uma insegurança generalizada e vai crescendo o sentimento de insegurança. É uma situação quase que subjetiva de cada um. Na medida que os meios de comunicação vão divulgando as informações, com mais precisão ou não, esta sensação aumenta”, afirma. “Isto traz um caos do ponto de vista social: pessoas que têm medo e pessoas que se aproveitam para dar vazão a instintos delinquentes.”

O psicólogo também destaca que há um “efeito manada”, da impessoalidade que se espalha “como um rastilho de pólvora” no caso dos saques. A reação em cascata também valeu para quando as forças de segurança federais foram deslocadas ao Estado: arrependidas dos furtos, muitas pessoas devolveram os produtos saqueados ainda dentro das caixas.

Assista: saqueadores arrependidos devolvem produtos