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Atualizado em terça-feira, 13 de março de 2018 - 19h44

Lava Jato descobre esquema de corrupção envolvendo bitcoins

É a primeira vez que as autoridades identificam o uso de moedas virtuais pela organização criminosa
A operação deflagrada nesta terça-feira (13), batizada de A operação deflagrada nesta terça-feira (13), batizada de "Pão Nosso" Foto: Agência Brasil

O 21º desdobramento da Lava Jato no Rio expôs outro braço do esquema criminoso chefiado pelo ex-governador Sérgio Cabral. Os artifícios utilizados pelos envolvidos se assemelham aos já revelados em investigações anteriores, com exceção de um detalhe: operações envolvendo bitcoins.

É a primeira vez que as autoridades identificam o uso de moedas virtuais pela organização criminosa. De acordo com o superintendente-adjunto da 7ª Região Fiscal da Receita Federal, Luiz Henrique Casemiro, R$ 300 mil foram lavados no exterior por meio de quatro operações com criptomoedas.

A operação deflagrada nesta terça-feira (13), batizada de "Pão Nosso", levou o ex-secretário de Administração Penitenciária do governo Cabral, coronel da PM Cesar Rubens Monteiro, à prisão. Além dele, foram alvos da ação outras 15 pessoas, entre elas o diretor do departamento-geral de polícia especializada, delegado Marcelo Martins, e o pai dele, Carlos Martins. Os dois foram presos acusados de lavar dinheiro no esquema por meio de contratos fictícios das empresas que eram sócios.

Em colaboração premiada, o principal operador financeiro de Sérgio Cabral, Carlos Miranda, disse que Martins recebia uma mesada por causa da participação na organização. A versão foi confirmada por outro delator.

O novo chefe de Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, tirou o delegado do cargo e disse que vai solicitar informações junto à Polícia Federal.

A investigação aponta que entre 2001 e 2015, a gestão da SEAP usou dinheiro público para comprar pães superfaturados para os detentos que cumprem pena no estado. Ao mesmo tempo pagava pelos insumos necessários para a produção do alimento, via um projeto de ressocialização de presos que confeccionavam os pães. O Ministério Público Estadual, que pela primeira vez participou da Lava Jato, aponta que o esquema causou um prejuízo de quase R$ 45 milhões aos cofres fluminenses.

Em 10 anos, o empresário Carlos Felipe Paiva, que está foragido, explorou a operação das padarias do sistema prisional do Rio através da empresa Induspan, , onde eram preparados os lanches. Em 2010, o Tribunal de Contas do Estado determinou a rescisão do contrato por danos ao erário.

Porém, burlando a decisão, Paiva, adquiriu usando laranjas, uma Organização Social, denominada Iniciativa Primus, para continuar como fornecedor, com o aval de César Rubens, então secretário. De acordo com o promotor Silvio Ferreira de Carvalho, logo depois o empresário superfaturou o alimento.

Em 2014, o valor dos pães já superava os 60 centavos, representando um aumento de quase 100% se comparado com o contrato anterior. O esquema funcionava no Complexo Penitenciário de Gericinó, na Zona Oeste do Rio, e em mais nove presídios do estado.

Entre 2010 e 2015, Carlos Felipe Paiva lavou pelo menos R$ 73 milhões e 500 mil no esquema. Os investigadores acreditam que ele está em Portugal. No mesmo período, o patrimônio de César Rubens cresceu 10 vezes.