Cuidado paliativo mostra que tecnologia tem limite, afirmam médicos

Especialistas explicam a importância das medidas paliativas: ‘paciente está vivo com qualidade e não a qualquer preço’

Pessoas que possuem doenças sem chance de cura podem buscar os cuidados paliativos, na qual o foco é sempre a qualidade de vida do paciente. Mesmo sendo mais comum em casos oncológicos, esse tipo de tratamento não se restringe a isso. É possível estar em um processo de reabilitação ou mesmo ter uma doença crônica para se submeter a eles.

Um exemplo é o médico Carlos Murta que, por meio de um Testamento Vital, buscou as medidas paliativas para evitar procedimentos invasivos - quando perdeu suas habilidade e consciência - que prolongassem sua vida de forma artificial. É uma opção do paciente, não existe certo ou errado.

Alguns hospitais possuem centros especializados nisso. Em São Paulo, por exemplo, há um hospital focado em casos assim, onde o norteador é o cuidado paliativo, com o menor sofrimento possível para o paciente.

Um deles é o Hospital Premier, localizado na Vila Cordeiro, na zona oeste da capital paulista. A tranquilidade presente no local contrasta com a movimentada via que fica ao lado.

Quem caminha pelos corredores nota que o conforto dos pacientes é prioridade. Nada lembra o ambiente quase inóspito comum em centros médicos. As portas dos quartos são “estilizadas”, identificadas com os nome de quem reside e alguma decoração.

quarto
Em um dos quartos vive a idosa, de 80 anos, que possui diversas fotos da família e da equipe médica - Luiza Vidal/Portal da Band

Há jardins espalhados pelo local, além de diversas fontes de água que passam a sensação de tranquilidade. O hospital nem ao menos parece ser localizado ao lado de uma das vias mais movimentadas da capital paulista.

Todos os andares - são três no total - possuem algum tema. Em um deles, frases e imagens do livro Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, acompanham quem passar pelo corredor.

Dom quixote
Trechos de livro espalhado no 1º andar, onde o tema é Dom Quixote - Luiza Vidal/Portal da Band


Atividades extras também fazem parte da rotina dos “moradores” do local. Uma vez por semana, mais ou menos, dois músicos passam cantando de quarto em quarto. Quem escolhe o repertório, de novo, é o próprio paciente.

“Tecnologia tem limite”

Apesar dos constantes e positivos avanços da tecnologia na medicina, há quem prefira um caminho sem “medidas heroicas”. É aí que os cuidados paliativos entram. São abordagens cujo objetivo é promover qualidade de vida por meio da prevenção e alívio impecável da dor e outros sintomas físicos, emocionais, sociais e espirituais.

O médico e diretor do Hospital Premier, Samir Salman, conta que o centro é especializado em pacientes crônicos de alta dependência, especialmente idosos. Além disso, o local também recebe pacientes de convênios médicos.

“A ideia do cuidado paliativo é mostrar que a tecnologia tem limite. Na nossa avaliação, às vezes, interferir na linha normal, em um fluxo da natureza, é indevido. É investir tempo em um paciente que já não responde mais”, explica o médico, em entrevista ao Portal da Band.

Salman diz que é necessário tirar a ideia de que a palavra “paliativo” carregue o significado de “remendo”. “Não podemos confundir com um local para morrer. O paciente aqui pode estar saudável e estar em um processo de reabilitação”, esclarece.

“Tem relação com doença incurável, que até uma criança pode ter. Isso também não pode ser sem técnica, apenas dar as mãos e rezar. Você tem a pessoa viva com qualidade e não a qualquer preço”, fala. “Nós não podemos evitar a morte, mas podemos evitar o sofrimento”.

“Tem que saber curar, mais cuidar também”

Médica psiquiatra do Hospital Premier, Manuela Salman também lamenta a evolução da medicina para um lado mais tecnicista do que humano. “Temos muitos pacientes que vem para morrer e o que a gente presta para eles é cuidado. Muitas vezes, a pessoa não estava no final da vida e recebe uma alta”, explica. “Tem que saber curar, mais cuidar também”, defende a médica.

Porém, Manuela deixa claro que certos avanços na medicina foram positivos e também contribuíram para uma vida mais saudável nos dias de hoje. “Claro que a gente conseguiu curar doenças infectocontagiosas, que eram as principais causas de morte, mas, agora, não é mais. São as crônicas e degenerativas. Muitas conseguem ser curadas, não podemos diminuir o valor dessa medicina curativa”, explica Manuela.

“Mas o câncer não é curado e sim ‘cronificado’, ou seja, a pessoa pode viver com o câncer por anos. Assim como a pressão alta, diabetes, doenças cardíacas ou pulmonares, demência... São doenças de longo prazo. Como será isso?”, questiona a psiquiatra.

Também especializada em cuidados paliativos, Manuela vê as faculdades formando médicos que não sabem lidar com a frustação de não curar pacientes. “Se o profissional da saúde, formado na sua base, ignorar que as pessoas morrem, a gente não vai para frente”.

“O mínimo que o curso de graduação deve é falar sobre a morte, mas isso não acontece”, lamenta a psiquiatra.

Manuela também explica que, além de todos os profissionais já terem esse cuidado maior voltado para os cuidados paliativos, esses também aprendem a criar vínculo com a família do paciente, já que são eles que serão responsáveis pelas decisões futuras.

Vínculo com a família

O diretor do hospital conta que as reuniões familiares ocorrem para que eles tenham consciência do quadro real do familiar. “Às vezes chegam aqui e não estão cientes da gravidade do caso, mas é preciso tempo, não é chegar falando tudo. Tem quer ser sensível e profissional”, fala.

Para a psiquiatra, o vínculo pode ser criado a partir de perguntas sobre o paciente. “A pessoa não fala, por exemplo, mas a família dá muitas pistas. Então a ideia é perguntar quem foi essa pessoa, o que ela gostava, o que é qualidade de vida para ela? Se ela já comentou se gostaria de ser entubada ou respirar com auxílio de máquinas. Quando não se têm respostas, é ir explicando tudo para a família, para que ela entenda”.

Compartilhar

Deixe seu comentário