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Sobre o autor

Mariana Mazza, A jornalista Mariana Mazza, especialista em telecomunicações, traduz, explica e comenta um dos setores que mais cresce no Brasil, mas que ainda se mantém tão distante dos consumidores. Há 10 anos acompanhando o setor de infraestrutura, Mariana Mazza, iniciou carreira na Anatel, mas logo mudou de lado do balcão e passou a se dedicar à cobertura do segmento no grupo Gazeta Mercantil, escrevendo para a Agência InvestNews e para os jornais Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil. De lá, seguiu para o Correio Braziliense, onde, além da cobertura das telecomunicações, continuo acompanhando os diversos setores da infraestrutura brasileira, como energia, transportes e aviação. Voltou às origens ao reforçar a equipe do noticiário especializado Teletime News/Telaviva News, onde passou a se dedicar exclusivamente à apuração dos meandros dos serviços de telefonia, TV por assinatura, banda larga e televisão no Brasil. Atualmente é editora nacional da Band em Brasília e comentarista da BandNews e da Rádio Bandeirantes.

por: Mariana Mazza

01/06/2016 19:36

Parece ficção, mas é a vida real


Sou fã de ficção científica. Filmes, livros, séries... Consumo quase tudo que cai em minhas mãos. E, como tantos que compartilham esse gosto, já me peguei sonhando muitas vezes com um mundo futurístico, tecnológico, onde existem replicantes, robôs perversos, máquinas que fazem tudo por nós...


Mas esse sonho é bom assim: apenas como sonho. Nas fantasias, o mundo do futuro já está estabelecido. Ninguém viu a transformação daquelas sociedades imaginárias, as mudanças de paradigmas éticos, morais, políticos e econômicos. Ninguém viu a queda de direitos que hoje são caros para a sociedade. Nem a naturalização de novos deveres e conceitos. Tudo parece ótimo porque não é o nosso futuro real. Surge na ficção como uma espécie de realidade paralela.


Mas essa não é uma coluna sobre telecomunicações e tecnologia? Por que raios esse devaneio? É que, assim como eu, muitos (senão todos!) os que trabalham na área tecnológica curtem uma ficção científica. E tentam materializar algumas "previsões" dos brilhantes autores desse tipo de literatura.


Nos últimos dias, tenho lido com preocupação sobre uma série de ações nesse sentido. A que mais me chamou a atenção foi o desenvolvimento de um aplicativo chamado FindFace. Essa nova ferramenta, lançada na Rússia há dois meses, me deixou de boca aberta. Esse aplicativo promete identificar qualquer pessoa fotografada em meio à multidão com 70% de índice de acerto. Parece ótimo não? Você gosta de alguém na balada, tira uma foto com o seu celular e pronto! Tá lá o perfil da pessoa, com nome, profissão, estado civil... Mas como isso é possível?


Os desenvolvedores do aplicativo dizem usar a base de dados do Vkontakte – uma das redes sociais mais populares da Rússia – e ferramentas de reconhecimento facial para identificar o rosto do sujeito fotografado. Se deixamos o furor voyeur passar, resta uma dúvida essencial: e aonde fica a privacidade? Vamos voltar para o exemplo da balada. Esse aplicativo parece ótimo se você é quem irá identificar o alvo da sua cantada. Mas e se o alvo for você? E não rolou aquela química? Estamos inaugurando uma nova fronteira para a cantada constrangedora não correspondida. Não há como mentir o nome, sair pela tangente... Quem tiver se interessado por você já sabe o básico sobre você.


Escolhi um exemplo banal propositalmente. Porque um dos grandes problemas da destruição da privacidade está na banalização cotidiana dos atentados à ela. Um aplicativo como o FindFace, usado em múltiplas plataformas, gera implicações gravíssimas à individualidade de cada um de nós. Vamos para um exemplo um pouco mais denso. Supondo um mundo onde o FindFace é usado irrestritamente, a polícia aparelhada por um determinado Estado poderia adotá-lo para identificar membros de uma passeata política contrária ao governo, por exemplo, e persegui-los. E isso seria uma completa violência à liberdade de expressão daqueles manifestantes.


Vou mais longe: a foto da plateia de uma palestra aberta em uma universidade. Você viu o tema, gostou, foi à universidade assistir e, no meio do evento, concluiu que não concorda em nada com a abordagem do palestrante. Você gostaria de ter sua identidade eternamente associada àquela palestra da qual você sequer concordou com o teor? Quando se fala de ataques à privacidade, não estamos falando apenas do que você faz no aconchego do seu lar. Estamos falando da própria individualidade de cada um de nós. Do que, de livre e espontânea vontade, compartilhamos com o mundo (e com quem queremos dividir) e do que preferimos manter apenas conosco.


Se você ainda não se assustou com os efeitos do FindFace - que, por ora, tá causando crise só na Rússia - vamos a outro exemplo de invasão de privacidade mais próximo a todos nós. O Facebook já admite que usa o microfone dos celulares para ouvir as conversas feitas próximas ao telefone em quem tem o aplicativo da rede social. E faz isso desde 2014! Veja bem, não estamos falando de acesso às mensagens que você compartilhou na rede social. Estamos falando de conversas privadas, onde os usuários desatentos estão sendo "grampeados" sem nem saber.


E por que o Facebook faz isso? Segundo a empresa, para te ajudar. Sério, é isso que eles dizem. Que é para obter informações suas que melhorem a sua navegação na rede social. E jura que não comercializa essas informações com mais ninguém. É difícil de acreditar, considerando que o próprio Facebook nunca te avisou claramente que estava espionando suas conversas privadas.


O projeto "Eu e Minha Sombra" do coletivo Tactical Tech fez um artigo excelente derrubando uma série de clichês usados por quem não vê o fim da privacidade como um risco à toda sociedade. O mais usado encabeça a lista do coletivo: "Eu não tenho nada a esconder". Como bem colocado pelo artigo, a questão não é esconder. É viver a própria vida sem interferências indevidas de ninguém. Isso é privacidade. Sugiro a todos a leitura, disponível em myshadow.org/pt/tracking-so-what.


Se ainda assim está difícil entender o preço da publicidade generalizada dos nossos dados pessoais, proponho um olhar crítico às obras de ficção. O clássico Minority Report, de Philip K. Dick, muito conhecido graças à montagem hollywoodiana de Steven Spielberg, gira em torno de algo muito simples: o livre arbítrio. Livre arbítrio este que é solapado, na história, por previsões sobre o futuro usadas pela polícia para coibir crimes que ainda sequer ocorreram. Na trama, essas previsões são feitas por três pessoas com poderes paranormais, os precogs. Agora troque os precogs por computadores. E John Anderton, o protagonista da história, por você. Usando algoritmos sofisticados, um grande relatório tem sido feito sobre cada um de nós, minando pouco a pouco o espaço da nossa privacidade em todos os níveis. E, nesta "nova lei" não existe por enquanto nenhum "relatório minoritário" para devolver o nosso livre arbítrio quando formos julgados.