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Sobre o autor

Mariana Mazza, A jornalista Mariana Mazza, especialista em telecomunicações, traduz, explica e comenta um dos setores que mais cresce no Brasil, mas que ainda se mantém tão distante dos consumidores. Há 10 anos acompanhando o setor de infraestrutura, Mariana Mazza, iniciou carreira na Anatel, mas logo mudou de lado do balcão e passou a se dedicar à cobertura do segmento no grupo Gazeta Mercantil, escrevendo para a Agência InvestNews e para os jornais Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil. De lá, seguiu para o Correio Braziliense, onde, além da cobertura das telecomunicações, continuo acompanhando os diversos setores da infraestrutura brasileira, como energia, transportes e aviação. Voltou às origens ao reforçar a equipe do noticiário especializado Teletime News/Telaviva News, onde passou a se dedicar exclusivamente à apuração dos meandros dos serviços de telefonia, TV por assinatura, banda larga e televisão no Brasil. Atualmente é editora nacional da Band em Brasília e comentarista da BandNews e da Rádio Bandeirantes.

por: Mariana Mazza

03/08/2016 14:34

Precisamos falar sobre traffic shaping


Coisas muito estranhas andam acontecendo na Internet, especialmente depois do fracasso da Anatel em convencer a população da necessidade de limitar o acesso à banda larga fixa por meio das franquias de dados. Quem acompanha os movimentos desse setor desconfiou imediatamente do recuo da agência reguladora, adiando por tempo indeterminado a polêmica decisão. Pois bem, começam a surgir indícios de que um novo estratagema para limitar a Internet foi colocado em prática em níveis jamais vistos pelos consumidores.


Hoje, eu e um amigo resolvemos fazer um experimento com as nossas conexões de banda larga. Somos clientes da mesma operadora, a GVT, recém transformada em Vivo. Apesar de o que vou contar aqui ter acontecido na rede da Vivo - que ao longo dos anos tem sido pioneira nos testes de maldades contra consumidores - não duvido nada de que a nova tática esteja sendo adotada também pelas concorrentes. Vamos ao teste.


O experimento foi feito com Luiz Queiroz, responsável pelo portal Convergência Digital, referência na cobertura especializada de telecomunicações e TI. Queiroz me ligou hoje, via Skype, incomodado com o que parecia uma falha na rede da GVT/Vivo. Quando ele fazia o upload dos vídeos para o site, as demais aplicações de Internet simplesmente pareciam parar de funcionar. Fiquei surpresa por um simples motivo: o mesmo vinha acontecendo comigo há pelo menos um mês, mas achei que estava com um problema de interferência apenas.


Fizemos vários testes e nossa teoria se comprovou. Sim, deliberadamente a GVT/Vivo está derrubando serviços de Internet para priorizar processos específicos. No momento em que ele tentou fazer novamente o upload do vídeo, nossa chamada via Skype foi para a cucuia. Não pensem, no entanto, que o problema é só com chamadas de Voz sobre IP (VoIP). Vi o mesmo "fenômeno" se materializar no carregamento de mensagens do WhatsApp e serviços de vídeo streaming como o Netflix. É como se a empresa estivesse fazendo apenas um serviço de Internet por vez. Se tentar mexer com duas coisas ao mesmo tempo há uma grande chance de que um dos processos simplesmente seja desconectado. Mas, afinal, o que é isso?


Bem, isso é uma coisa chamada Traffic Shaping ou modelagem de tráfego. Uma prática condenada por órgãos de defesa do consumidor e especialistas em Internet no mundo inteiro. O traffic shaping consiste em priorizar processos em detrimento de outros no ambiente da Internet, supostamente com a intenção de dinamizar o uso da rede. Na realidade, quem lança mão desse expediente normalmente está visando outro objetivo: minar a concorrência de aplicações que prejudicam seus próprios serviços. Não é à toa que o alvo favorito do traffic shaping é o VoIP. Em um setor verticalizado como é o de telecomunicações no Brasil, sua operadora de banda larga também é a responsável por sua oferta de telefonia fixa. E o VoIP tira tráfego da rede fixa, onde a empresa pode te cobrar pela chamada. Como reverter isso? Tornando o acesso a aplicativos de VoIP péssimo.


O traffic shaping, em tese, não é proibido. Mas também não é permitido como prática anticoncorrencial. Teoricamente, moldar o tráfego é autorizado apenas quando esse controle é feito para garantir a "saúde" da rede de acesso à Internet, priorizando serviços com uma latência menor. A latência nas redes é o tempo entre a tentativa de acesso a um pacote de dados e a sua entrega efetiva ao internauta. Diferentes aplicações possuem diferentes latências. Há uma tolerância muito maior do internauta na espera de um e-mail do que no acesso ao site de um buscador de conteúdo, por exemplo. O traffic shaping tolerado garante a adoção de processos na rede que priorizem, no caso, o acesso ao buscador em detrimento do e-mail. Mas o que parece estar sendo feito agora vai muito além da gestão legítima da rede.


Disse acima que o traffic shaping não é proibido em tese, porque a maioria dos países não possui legislação sobre esse tipo de gestão. Mas o Brasil é um caso à parte. Aqui, a promulgação do Marco Civil da Internet vetou esse tipo de prática no momento em que estabeleceu como princípio a neutralidade de redes. A neutralidade impede que pacotes sejam priorizados moldando a natureza do acesso dos consumidores. Então, apesar de o traffic shaping não estar proibido explicitamente, não há dúvidas de que esse tipo de prática fere o princípio da neutralidade.


Ao que parece, adotar esse tipo essa gestão mais intensa da rede, à revelia da lei, está intimamente ligado à malfadada tentativa de impor o modelo de franquia na banda larga. Para justificar a limitação do acesso, as teles verteram lágrimas de crocodilo de que os brasileiros estão usando a Internet demais. E que as redes não estão dando conta da demanda. Lembrem-se que o presidente da Anatel, João Rezende, foi o porta-voz dessa tese, culpando os internautas pela necessidade de algum tipo de limitação. O jogo não colou. Além da mobilização maciça dos internautas em petições online web afora, Ministério Público Federal (MPF) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) tomaram a frente na briga contra a franquia na banda larga fixa. Tudo isso tornou a possibilidade de a Anatel impor a nova regra praticamente impossível. E é ai que o traffic shaping entra como um bem sucedido “Plano B”. Se não posso desconectar o consumidor, vou diminuir a acessibilidade dele na rede e, a partir de agora, ele só pode usar uma coisa de cada vez.


A peculiaridade do traffic shaping é que as empresas negam até a morte que o façam, tornando esse tipo de controle o crime perfeito pelo simples fato de que nego a existência de um cadáver. Em um mundo ideal, a agência reguladora seria a entidade capaz de localizar e expor o corpo, verificando os processos que estão sendo adotados pelas operadoras na gestão de rede. Mas, nesse caso, parece que a Anatel prefere ignorar sua tarefa. E não custa lembrar: por aqui, o traffic shaping não é apenas uma prática controversa; é ilegal.