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Atualizado em terça-feira, 2 de maio de 2017 - 19h11

Professora se inspira em 'mulheres fortes' nas aulas

Carol já se fantasiou de Frida Kahlo e Carmen Miranda; veja imagens
Alunos de 3 a 4 anos ficaram encantados quando 'conheceram' a pintora mexicana / Arquivo pessoal Alunos de 3 a 4 anos ficaram encantados quando 'conheceram' a pintora mexicana Arquivo pessoal

Figuras de mulheres fortes podem servir de inspiração para muitas pessoas. No caso de Carolina Boccuzzi, professora da rede municipal de São Paulo, elas são mais que isso: são matérias de sala de aula. E os alunos são pequenos, com idades entre três e quatro anos. Mas isso não significa que eles não entendem a mensagem.

Durante as aulas na Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Pero Neto, Carol, 26 anos, resolveu inserir a história de Frida Kahlo, a famosa pintora mexicana. A escolha não foi à toa e foi decidida a partir da observação, assim como todos os temas das aulas, fazendo com que o aluno seja "o protagonista".

“Eles tinham uma realidade difícil e pesada, que carregavam para a vida de criança. Não tem como dissociar: o educar e o cuidar. Você é humano e se comove com as histórias”, explicou.


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Carol se fantasiou durante aula (Arquivo pessoal)


A professora, então, pensou em uma artista que servisse de inspiração para as aulas. “Ela [Frida] sofreu muito, mas colocou o sofrimento nos quadros, pinturas e desenhos.” 

Com isso, Carolina e outra professora usaram como base um livro de história infantil da Frida, que liam para eles. Para prender ainda mais a atenção dos pequenos, a jovem resolveu se fantasiar. “É uma forma de trazer o lúdico, mostrar na prática o que estou falando”, disse. E não é que deu certo? A jovem contou que alguns acreditaram, de fato, que aquela era mesmo a pintora. 

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“Eles ficaram encantados, adoraram e notavam os detalhes: ‘ela tem bigode, sobrancelha grossa e o macaco dela’”, relatou Carol.

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Exposição dos alunos na sala de aula (Arquivo pessoal)

No final do projeto, os alunos fizeram intervenções em xerox das obras da pintora (foto acima), que ficaram em exposição na escola.

“Não é só o desenho final, mas todo o processo. Trabalhamos muito a questão do autorretrato, como eles se enxergavam”, explicou a educadora. “Eles pensavam ‘estou triste, então vou desenhar como a Frida, para eu me sentir melhor”, completou.

Por coincidência, na mesma época da conclusão do projeto, a exposição da Frida Kahlo entrou em cartaz em São Paulo e os alunos também foram conferir. A ideia fez tanto sucesso, que o projeto foi estendido.

Chica Chica Boom Chic 

Além de Frida, Carol também já se fantasiou de Carmen Miranda, cantora e atriz portuguesa radicada no Brasil, durante a comemoração do Carnaval deste ano. A única mudança foi o lugar, agora na Emei Heitor Villa-Lobos, na Zona Sul de São Paulo. 

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Para Carol, as fantasias prendem mais a atenção dos alunos (Arquivo pessoal)

A ideia era mostrar que existem “outras formas de manifestação popular” durante a data, diferente do costume de fazer as “máscaras” nas salas de aula. “Muitas vezes, eles não sabem nem o que aquilo significa, e eles precisam saber o que estão fazendo”, falou.

Para isso, a professora pesquisou sobre a cantora e encontrou em Carmen a figura de uma mulher forte, inclusive a primeira a ganhar o melhor salário de Hollywood, nos EUA. “Ela não é a menina frágil, que só chora, faz as coisas de casa, como é a imagem de alguns alunos”, explicou.

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No dia em que apareceu na escola fantasiada de Carmen, ela mostrou vídeos, músicas, as danças da cantora. E foi um sucesso total. “No dia seguinte, eles só cantavam as músicas dela”, contou. “Isso vai marcar eles pra sempre e o aprendizado será mais significativo. A criança sendo protagonista é uma forma de como se entende a educação hoje em dia”, disse.

Formando cidadãos

A professora acredita que o trabalho dela como educadora dessas crianças ajuda a formar cidadãos com menos preconceitos e estereótipos. “Não podemos subestimar a inteligência deles. A partir do momento que eles têm acesso à educação, eles podem mais”, disse.

“Formamos cidadãos para que cresçam sem reproduzir preconceitos, racismo, homofobia. Mesmo sendo pequenos, eles já trazem alguns estereótipos: os meninos já acham que são melhores, mais fortes, e as meninas frágeis. A questão de brinquedos, que meninos não podem gostar de bonecas, e meninas de carro”. 

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Foto tirada durante atividade com alunos (Arquivo pessoal)

Racismo em pauta

Carol ainda não tem planos para as próximas personagens que pensa em abordar na sala de aula, já que a escola depende também do interesse dos alunos. Mas as ideias já começam a surgir.

“Observei que a questão racial das meninas chamou atenção delas depois que eu li uma história. Talvez trabalhe com alguma mulher negra ou representações pelo mundo”, disse.