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Atualizado em segunda-feira, 19 de junho de 2017 - 13h57

O último verão da família Romanov

O czar Nikolai 2º e sua família foram mortos em Ecaterimburgo, onde foram exilados em 1918; lá caminharam, leram e apreciaram meses quentes
Nicolai 2º com sua filha Anastassia e seus criados no parque do Palácio de Aleksandr, em Tsárskoie Selô / Arquivo/Gazeta Russa Nicolai 2º com sua filha Anastassia e seus criados no parque do Palácio de Aleksandr, em Tsárskoie Selô Arquivo/Gazeta Russa

O czar Nikolai 2º e sua família foram mortos no porão da casa em Ecaterimburgo onde foram exilados na noite de 17 de julho de 1918. Em março do ano anterior, o imperador russo havia abdicado ao trono e passado todo o verão em sua residência de Tsárskoie Selô, nos arredores de São Petersburgo.

 

Foi a última vez na vida do czar e família que eles gozaram de seu elevado status. Apesar de estarem sempre sob os olhos da guarda, ali caminharam, leram e apreciaram os meses de calor.

 

“Durante o dia cortamos alguns grandes abetos no cruzamento das três estradas ao longo do Arsenal. Havia um incêndio colossal, o sol estava avermelhado, e no ar pairava um cheiro de queimado, provavelmente de turfa queimando em algum lugar. Saímos para velejar um pouco. À noite caminhamos até as oito horas. Comecei o volume de ‘O Conde de Monte Cristo’”, escreveu o imperador Nikolai 2º em seu diário no dia 5 de junho de 1917. 

 

O diário do czar parece um pouco ingênuo. Nele, Nikolai 2º falava sobre momentos de diversão com as crianças, lições de geografia ao príncipe Aleksêi, leitura e navegação. Mas, às vezes, o imperador expressava grande preocupação com o futuro da Rússia e os eventos revolucionários que então ocorriam.

 

“Ontem, descobrimos que o general Kornilov desistiu de seu cargo de comandante-chefe do Distrito Militar de Petrogrado, e esta noite foi Gutchkov que renunciou. Ambos dão o mesmo motivo: a irresponsável interferência dos deputados do Soviete de Petrogrado e outras organizações ainda mais radicais em relação às autoridades militares. O que a pobre Rússia pode esperar da Providência [divina]? A vontade de Deus será feita”, escreveu.

 

Aleksêi era o filho caçula da família Romanov e naquele verão completou 13 anos. Estava gravemente enfermo e sofria de hemofilia, uma doença comum a outros descendentes da rainha britânica Victoria. 

Príncipe Aleksêi tomando banho no lago do jardim do Palácio de AleksandrFoto: Príncipe Aleksêi tomando banho no lago do jardim do Palácio de Aleksandr (Arquivo/Gazeta Russa)

 

Nesta foto, as princesas Tatiana e Anastassia descansam no jardim. Tatiana, por sinal, está segurando seu buldogue francês preferido, chamado Ortino. Após o assassinato da família Romanov, Ortino foi morto por Grigôri Nikulin e Aleksêi Kabanov.

Nesta foto, as princesas Tatiana e Anastassia descansam no jardimArquivo/Gazeta Russa

 

As quatro princesas – Anastassia, Tatiana, Olga e Maria – não tiveram a cabeça raspada pelos revolucionários. Elas fizeram isso porque seus cabelos cresceram de forma diferente depois que todas se recuperaram do sarampo.

As quatro princesas ¿ Anastassia, Tatiana, Olga e Maria ¿ não tiveram a cabeça raspada pelos revolucionários. Elas fizeram isso porque seus cabelos crArquivo/Gazeta Russa

 

“Durante a noite chovia, e o dia foi consideravelmente mais ameno. De dia trabalhamos em uma pequena passagem. Alix [como Nikolai chamava sua mulher, Aleksandra] sentou-se com a gente na floresta. Depois do jantar, o casal Benckendorf veio nos visitar”, escreveu o czar em 23 de julho de 1917.

 

O czar era vigiado enquanto permanecia no jardim do Palácio de Aleksandr. “Um dia, quatro soldados com rifles me seguiram, tirei proveito disso e, sem dizer uma palavra, segui para mais longe no parque. Dali em diante comecei a fazer longas caminhadas diárias e cortar árvores secas pela tarde”, escreveu em carta a sua irmã Ksênia.

czarArquivo/Gazeta Russa

 

De acordo com diferentes relatos e seu próprio diário, o czar Nikolai 2º era obcecado por exercícios físicos, e uma de suas atividades favoritas era cortar árvores. Ele também amava jardinagem e cultivava vegetais.

 

Em 1889, Nikolai escreveu em seu diário sobre a sua então futura mulher: “Meu sonho é casar-me um dia com Alix de Hesse. Eu a amo há muito tempo, mas de forma mais profunda e fervorosa desde 1889, quando passou seis semanas em São Petersburgo”. Aleksandra teve difteria quando jovem e desenvolveu reumatismo, que piorou após ter cinco filhos e devido à preocupação com a doença do caçula, Aleksêi.

O último verão da família RomanovArquivo/Gazeta Russa

 

Depois de passar o verão de 1917 sob a vigilância da guarda, em 1º de agosto, a família foi enviada ao exílio em Tobolsk, onde passou o resto da vida. “O czar ficou no meio da sala, com seu filho e sua mulher sentados a seu lado. As quatro filhas e os criados foram alinhados ao longo das paredes. Iurovski disse ao czar que ele iria morrer. Nikolai respondeu: ‘O quê?’. E começou então a se mover em direção a Iurovski. Iurovski apontou sua pistola para a cabeça do czar e atirou à queima-roupa. Ele virou a arma para Aleksêi e também atirou nele. O resto dos homens presentes começaram a disparar, e logo a sala estava tomada por sangue e cheiro de pólvora. Era possível ouvir gemidos e gritos.”

 

“Após a primeira disparada, três vítimas ainda permaneciam vivas. A camareira Anna Demidov havia ficado ligeiramente ferida e correu pela sala protegendo-se com um travesseiro. Ela foi golpeada com a coronha do rifle e baionetas. Anastassia gritou e tentou se levantar. Um soldado a prendeu contra o chão usando o pé e depois a matou com uma coronhada. Por último, o jovem Aleksêi estrebuchou, e Iurovski disparou mais duas balas contra sua cabeça. As outras vítimas foram golpeadas com baionetas para garantir que estivessem mortas.”

 

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