Ex- ator pornô gay é professor de universidade prestigiada

Ruggero Freddi dá aula de Matemática na Sapienza, uma das melhores instituições de ensino superior da Itália

Ao falar de seu currículo, o professor Ruggero Freddi classifica-o como inatacável. São dois diplomas universitários obtidos com louvor, cinco bolsas de estudo e diversas pesquisas, além de um doutorado em curso, numa trajetória construída na Universidade La Sapienza, em Roma, umas das mais prestigiadas da Itália. Nos seus 41 anos de idade, ele também fez uma carreira, da qual é igualmente orgulhoso, fora do mundo acadêmico:  durante seis anos, foi conhecido mundialmente como Carlo Masi, um dos maiores nomes do pornô gay.

A história de Freddi tornou-se conhecida em toda Itália há poucos meses, depois que alguns de seus alunos na Sapienza viram um vídeo, postado no Facebook, em que ele aparecia fazendo musculação. Divertidos com o fato de um professor de Análise Matemática e Engenharia Clínica ter a aparência de um fisiculturista, um padrão estético menos comum e almejado no país europeu do que no Brasil, quiseram saber mais sobre seu passado e descobriram a carreira anterior do docente.

Desde então, o professor italiano tem tido uma exposição intensa na mídia de seu país e apareceu em algumas das publicações importantes, como o jornal Corriere Della Sera e a revista Vanity Fair, além de ser convidado frequentemente para programas de TV.

Em entrevista por telefone ao Portal da Band, Freddi afirmou que, apesar da “descoberta” da imprensa e de seus alunos, nunca fez nenhum segredo sobre a carreira em filmes adultos para o público gay.

“Meu passado como ator pornô nunca foi um segredo na universidade. Todos me conhecem - sempre me conheceram, como estudante. Meus colegas sabiam muito bem que fiz pornô – não sei se alguém se importou muito”, diz.

É fácil acreditar em Freddi ao ouvir como ele coloca as duas carreiras no mesmo patamar, enumerando as conquistas em ambas sem falsa modéstia. “Sou muito orgulhoso de tudo aquilo que fiz na minha vida. Tudo foi bem feito, com integridade e coerência comigo mesmo: fui um ótimo estudante de engenharia, um bom pesquisador como engenheiro, um astro pornô reconhecido e fiz trabalhos no pornô dos quais gosto - não fiz coisas que achava ruim. Depois fui um ótimo estudante como matemático e espero agora de ser um bom pesquisador na área. Sei que sou um bom professor porque tenho um ótimo feedback de todos os meus alunos.”

Veja fotos de Ruggero Freddi:

Do laboratório de inteligência artificial ao set pornográfico

Ruggero Freddi fez sua estreia no pornô gay em 2004, logo após ter concluído o curso de Engenharia na Sapienza.

“Me formei no tempo certo, quer dizer, aos 26 anos, quando, por acaso, a produtora [de filmes pornográficos] Colt Studio, de São Francisco (EUA), viu meu perfil nas redes sociais e me contatou. Eu estava procurando um emprego, porque trabalhava em um laboratório de inteligência artificial dentro da universidade, mas pagavam realmente pouco”, lembra.

A carreira nos filmes de entretenimento adulto durou seis anos, com o nome artístico de Carlo Masi. Durante o período, ele se tornou-se um dos atores mais conhecidos do pornô gay, com direito a ter reproduzida e comercializada no mundo todo uma réplica de seu pênis em látex.

Além da fama, o professor também encontrou em um set pornográfico o companheiro de sua vida, o argentino Gustavo Leguizamon, de 45 anos, conhecido na época pelo nome artístico de Adam Champ, com quem está junto há 11 anos.

Em 2010, Freddi fez um balanço de sua vida, após “ter feito tudo aquilo que podia fazer no ambiente pornô”. Ao continuar, pensou, teria atuar em “coisas menos belas” em relação ao que havia participado até então. Sentindo-se “realmente afortunado” com sua passagem pelos filmes adultos, decidiu encerrar esta etapa e voltar à universidade para cursar Matemática.

Ativismo

Quando analisa os tempos de pornô, Freddi tem a percepção que sua carreira como astro do entretenimento adulto anda lado a lado com o ativismo pelos direitos do LGBT (sigla que engloba gays, lésbicas, bissexuais e travestis).

“Acredito que meu trabalho no pornô, principalmente por ser o pornô gay, foi fundamental para a evolução da comunidade LGBT de todo o mundo. Se pensamos em garotos que moram um uma cidadezinha, que não têm um ponto de referência [homossexual], o único ponto de identificação para a sua sexualidade é a pornografia, então rapidamente se entende quanto ela é importante”, diz. “Penso que mostrei um sexo feliz, sem senso de culpa, positivo, contente.”

“Também procurei difundir através dos meus vídeos uma mensagem importante, que é o de utilizar o preservativo, algo que nos protege. Eu sempre fiz sexo seguro nos meus vídeos”, afirma o professor.

A questão com doenças sexualmente transmissíveis, principalmente a Aids, continua a ser uma preocupação de Freddi. Se a fama renovada que obteve nos últimos meses o ajudam na missão da conscientização, a exposição também tem lhe causado alguns entraves.

Para o dia 1º de dezembro, data dedicada ao Dia Mundial de Luta contra a Aids, ele havia programado uma palestra, que seria realizada na faculdade de Engenharia da Sapienza, sobre uma nova terapia retroviral. Embora tenha sido aprovado e planejado com um mês de antecedência, o evento foi cancelado na última hora pela direção do setor.

O professor não acha que o motivo da proibição tenha sido uma questão de preconceito, que ele diz nunca ter sofrido na Sapienza. “Nem a minha universidade nem a minha faculdade são homofóbicas. O problema é a total carência de espinha dorsal delas. Se assustaram com toda essa exposição midiática”, acredita.

“Decidi nunca mais ser vítima”

“Devo dizer que minha história não tem um lado vulnerável”, diz ele ao ser questionado sobre discriminação no meio acadêmico. “Podem criticar o quê?  As únicas críticas que poderiam ser feitas com certeza não são à minha carreira, seriam de tipo moral, mas é algo muito pessoal e ninguém se debruçou sobre isso.”

A vida do autoconfiante professor universitário nem sempre foi assim. Ao falar da infância, conta que “se sentia desesperado”, porque era uma criança com quem ninguém queria falar. Por isso, ele diz que nunca deixará de ser militante.

“Era realmente solitário. Quando fiz 17 anos aceitei a minha homossexualidade e naquele momento decidi que nunca mais seria uma vítima - e assim foi. Porém me lembro daquela experiência, que me acompanha até hoje, então eu sou muito próximo aos meus irmãos e irmãs gays. Minha grande vontade é levar minha experiência, a bagagem que trago da viagem que foi a minha vida até agora, para eles.”

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