Ditadura Militar: entenda 5 pontos polêmicos

Especialistas explicam avanços e retrocessos na economia, desenvolvimento, segurança, educação e corrupção do regime que durou 21 anos no Brasil

O Golpe Militar, que deu início à Ditadura Militar, completa 50 anos nesta terça-feira. Cinco décadas após o começo do regime que durou 21 anos, as polêmicas permanecem. O Portal da Band ouviu três especialistas sobre cinco temas referentes ao período: desenvolvimento, economia, corrupção, segurança e educação.

Saudosistas veem o governo militar como positivo para a economia brasileira. O PIB (Produto Interno Bruto) chegou a 15% em meados dos anos 1970 e impressionou não apenas os militares, que estavam no poder, mas também o trabalhador – principalmente – da construção civil.

“Nessa época houve uma migração de pessoas do campo para as cidades surpreendente. O que aconteceu foi, também, uma melhoria de vida grande desses trabalhadores”, explica Ângelo Del Vecchio, cientista político e pesquisador da Fespsp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

De acordo com o professor de História da PUC-SP Luiz Antônio Dias, do ponto de vista do trabalhador da construção civil, não há como dizer que a ditadura foi ruim. “Havia uma rotatividade enorme de mão de obra, eles acompanhavam os empregos conforme o valor do salário e, para eles, foi muito bom. Mas é preciso lembrar que os trabalhadores não viveram a parte ruim, acabavam de chegar à metrópole em um cenário favorável de emprego”.

Del Vecchio lembra que outro fator favorável ao Brasil foi o cenário internacional. “O governo Costa e Silva e o governo Médici souberam trazer para cá essas vantagens que ajudaram o país a se desenvolver por meio de bens duráveis”. Para ele, porém, durante o governo Geisel o fator de economia externo muda totalmente.

“O quadro se inverte com a crise no petróleo, o governo opta por fazer um arranque nacional”. Foi neste período que a inflação se elevou rapidamente, o ‘Milagre Econômico’, como foi chamado o momento da economia brasileira entre 1968 e 1972, acabou e os problemas começaram a aparecer.

No governo Geisel, Brasil enfrente problemas econômicos grandes
No governo Geisel, Brasil enfrente problemas econômicos grandes - Arquivo/Folhapress

“O destaque fica para os desequilíbrios econômicos e sociais que a ditadura gerou. Econômicos relativos a desproporções departamentais e endividamento externo assustador. E sociais, pois colocou o Brasil no primeiro lugar no ranking da desigualdade social do mundo. Os reflexos disso são sentidos até hoje”, afirma o pesquisador da Unesp (Universidade Estadual Paulista) Adilson Marques Gennari.

Dias concorda: “Houve crescimento para todo mundo. Mas é inevitável afirmar que, para os ricos, essa vantagem foi ainda maior. O que ocorreu foi um distanciamento ainda maior entre ricos e pobres, uma desigualdade imensa”.

Corrupção 

A corrupção no período da Ditadura Militar, para especialistas, claramente existiu. Porém, a falta de informação e uma possível “maquiagem” nos índices da época resumem o contrário: uma administração que controlou os níveis de corrupção que existiam nos governos anteriores, de JK e Jango.

“Creio que pode ter havido um nível menor, mas qualquer modelo político é passível de corruptos. Os militares tinham um discurso de que nunca usaram o poder em benefício próprio, que nunca enriqueceram e que uma prova disso é o fato de não terem aumentado seus próprios salários”, afirma o especialista da PUC-SP, Luiz Antônio Dias.

Gennari diz que esta ideia não passa de um “mito criado pela direita”. “Na verdade a corrupção sempre correu solta, hoje em dia ela é divulgada”.

Como exemplos disso, o cientista político Ângelo Del Vecchio lembra da Ponte Rio-Niterói, um empreendimento de bilhões de reais que, segundo o TCU (Tribunal de Contas da União), foi superfaturada nos anos 1970 – período do regime ditatorial. 

Ponte Rio-Niterói é um exemplo de obra superfaturada na época do regime
Ponte Rio-Niterói é um exemplo de obra superfaturada na época do regime - Marcelo D. Sants/Frame/Folhapress

Outro exemplo de corrupção ocorreu durante o período do governo Costa e Silva e de Médici, entre o fim dos anos 1960 e início dos anos 1970. São as obras viárias de São Paulo – o Minhocão, na zona oeste – é uma delas. “Obras do período de Paulo Maluf na prefeitura da capital paulista também foram superfaturadas, segundo investigações do próprio Tribunal de Contas do Município”, diz Del Vecchio.

Segurança e Educação 

A desigualdade social que deixou o Brasil em primeiro lugar durante a Ditadura Militar gerou, também, a criação desenfreada de periferias nas grandes cidades. Segundo o pesquisador da Fespsp, os bolsões de miséria foram criados naquele momento – embora os índices de criminalidade fossem menores que os de hoje – o que, de acordo com Del Vecchio, motivou o cenário de violência atual.

“Na verdade havia extermínios de pobres e pretos nas periferias levado a cabo pelo famoso esquadrão da morte. Os ricos tinham uma aparência de maior segurança porque os problemas sociais somente se agravavam e foram tratados durante toda a ditadura como caso de polícia e não como uma questão social de responsabilidade de toda a sociedade”, explica Gennari.

O pesquisador da Unesp acredita que a Doutrina de Segurança Nacional, criada naquele momento como forma de repreender os crimes, “apenas criava uma sensação de segurança para as elites e a maior parte do povo vivia na tensão de ser morto”.

Fachada do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), usado durante a ditadura como local de repressão
Fachada do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), usado durante a ditadura como local de repressão - Arquivo/Folhapress

Del Vecchio lembra que é preciso fazer uma comparação. “Naquele momento a sensação de segurança também era maior porque havia menos pessoas – São Paulo era um terço do que é hoje”. O Mesmo, segundo o especialista, pode ser levado em consideração na educação.

“Havia menos acesso à educação pública do que há hoje, a sensação de que o ensino era melhor, assim, era maior. Hoje, o acesso ao ensino público é massificado, mas a qualidade não mudou, só não conseguiu acompanhar este crescimento”, finaliza o cientista político. 

Compartilhar

Deixe seu comentário