Impeachment de Collor completa 20 anos

A retirada democrática de Fernando Collor da Presidência da República, há 20 anos, acenava com mudanças éticas e políticas do Brasil

Em 1989, o Brasil da redemocratização tateava em busca de um novo caminho, experimentando os limites da liberdade redescoberta apenas quatro anos antes. 


A primeira eleição presidencial depois de 25 anos de ditadura militar serviria como teste para o país em transformação. Logo surgiu naquele cenário eleitoral um personagem improvável: o jovem governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello, à época com seus 40 anos.

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Com seus “dois elles” em verde e amarelo, vendia a imagem da renovação, da juventude e do implacável “caçador de marajás”. Depois de renhida disputa com o petista Luiz Inácio Lula da Silva, Collor conquistou 35 milhões de votos e se tornou o primeiro presidente eleito diretamente desde o fim do regime instalado em 1964.

Rapidamente, porém, o encantamento de boa parte da população cedeu lugar à decepção. O primeiro passo em falso veio com o confisco da poupança, anunciado assim que o novo governo se instalou. O ato, que contrariou uma promessa explícita de campanha, deixou a população perplexa.

Dali em diante, avolumou-se o processo de corrosão da confiança no novo governo, que culminaria com seguidas revelações sobre negociatas ocorridas nos bastidores da chamada “República de Alagoas”.

Em dois anos, Collor se viu envolvido em um escândalo de corrupção até então inaudito.  Em 29 de setembro de 1992, Fernando Collor veria o Congresso aprovar por 441 votos a abertura do processo que o afastaria por 120 dias do cargo e acabaria por expulsá-lo da Presidência da República. Motivo: ter contas pessoais pagas com dinheiro público. O vice-presidente, Itamar Franco, assumiu em seu lugar e concluiu o mandato até 1994.

A ironia era que o então presidente gabava-se de liderar um governo que se propunha a combater a hiperinflação, diminuir o tamanho do Estado e acabar com os supersalários dos servidores públicos – uma tese moralizante que havia acertado o coração dos brasileiros.

O impeachment, acreditava-se à época, serviria como exemplo para o futuro, capaz de mudar a postura e os rumos da política brasileira. O tempo diria que, por mais avanços que se tenha obtido, ainda há o que fazer.

Passados 20 anos e quatro presidentes, a sensação é de que antigos hábitos seguem enraizados no meio político. O cheque usado para a compra de um Fiat Elba que acabaria sendo usado como prova do envolvimento de Collor nas irregularidades deu lugar a inovadoras fórmulas de atentados aos interesses públicos.

Ao longo de duas décadas, em vez de diminuírem, as denúncias de corrupção se perpetuaram. Desvio de dinheiro da saúde, fraude na compra de ambulâncias, superfaturamento de contratos públicos, a troca de favores políticos, os “mensalões”. Dos 37 réus que estão sendo julgados pelo STF (Supremo Tribunal Federal) no mensalão do PT, 16 são políticos.

Nem tudo, entretanto, são espinhos. Em iniciativa inédita, 1,3 milhão de brasileiros assinaram a proposta da Lei da Ficha Limpa, que acabou sendo aprovada para impedir que políticos condenados possam disputar cargos públicos.

Mesmo com todos os danos gerados pelo trauma do governo Collor, o país pós-impeachment apresentou avanços. A abertura comercial iniciada na época mostrou-se fundamental no processo de crescimento do país. Também ficou claro que por mais poderoso que seja, nenhum presidente governa sem o Congresso. Cientes disso, Itamar Franco, Fernando Henrique, Lula e Dilma nunca tiveram menos de dez partidos na base aliada.

Hoje, contudo, o que se discute é justamente o preço dessas alianças.

O irmão, o motorista e o PC

A vida real imita a ficção. E, para se chegar às provas contra Fernando Collor, o roteiro foi digno de cinema.

A denúncia partiu da própria família do então presidente. Pedro entregou como funcionava o esquema de corrupção e morreu sem se reconciliar com o irmão. Não foi a única morte. Paulo César Farias, principal operador das fraudes, chegou a movimentar o equivalente a R$ 1 bilhão em dois anos. Acusado por sonegação fiscal, fugiu e acabou preso na Tailândia. Posto em liberdade, foi encontrado morto, ao lado da namorada, em 1996, em um aparente crime passional.

Para se sustentar no poder, Collor teve apoio de políticos que montaram a chamada “tropa de choque” no Congresso. Roberto Jefferson, delator do mensalão hoje e réu no STF, e o senador Renan Calheiros trabalharam para combater o impeachment.

Os mocinhos de outrora agora são vilões – ou vice-versa. Então deputados pelo PT, José Genoíno e José Dirceu foram ferozes opositores do ex-presidente e comandaram a criação da CPI da Corrupção na época. Agora, respondem no STF pelo mensalão.

A outro personagem importante do enredo, o destino reservou uma ironia: o então presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), Lindbergh Farias, que comandou a geração “cara-pintada”, é hoje colega de Senado do ex-presidente.

Tereza Collor, mulher de Pedro e ex- cunhada do presidente, foi a primeira das “musas” de CPIs e hoje vive uma vida reservada longe da política.

O motorista Eriberto França, que dirigia o carro da ex-secretária de Collor Ana Aciolli e que revelou que era PC Farias quem depositava o dinheiro ilícito em contas-fantasma, atualmente trabalha como auxiliar de produção da TV do governo federal. Escaldado, manteve-se longe da política.

O castigo e o retorno de Collor

Depois de dois anos e nove meses de mandato, Fernando Collor de Mello deixou o governo pela porta dos fundos.Minutos depois de o voto 441 ser declarado na Câmara, decretando o impeachment, Collor e a então primeira-dama, Rosane, embarcaram num helicóptero com destino à Base Aérea.

A rampa do Palácio do Planalto por onde fazia questão de subir todas as segundas e descer às sextas foi substituída naquela tarde por um elevador privativo. Chegando ao aeroporto, o voo de volta para casa tinha como destino Maceió. A distância do poder o deixou deprimido. Em seis meses, Collor arrumou as malas e buscou um refúgio. Foi para Miami, onde tentou se reerguer.

Era 1992, mas o 32º presidente da República ficou no passado e com os direitos políticos cassados até o ano 2000. Foram oito anos no exterior. Durante o período, tentou, sem sucesso, retomar os direitos políticos nos tribunais. Conquistou uma vitória em dezembro de 1994.

Por falta de provas, o STF (Supremo Tribunal Federal) arquivou as acusações de corrupção. Collor então passou a buscar o perdão nas urnas. Passado o período da inelegibilidade, escolheu voltar concorrendo à Prefeitura de São Paulo, em 2000, e perdeu.

Dois anos mais tarde, de volta ao domicílio eleitoral de origem, tentou o governo de Alagoas e sofreu nova derrota. O retorno à vida pública ocorreria, enfim, em 2006, como senador eleito por Alagoas. Nos primeiros anos, era visto de canto de olho pelos colegas – muitos ainda esperando explicações.

O gelo foi quebrado em março de 2007 – exatos 14 anos e seis meses depois de ser retirado do poder. Collor ocupava a tribuna para falar sobre o passado. Classificava o impeachment como uma vingança política. “Obrigaram-me a padecer calado e causaram marcas na minha alma e cicatrizes no meu coração”, afirmou, em um discurso de três horas, sem interrupção. Houve manifestações dos senadores tratando todo o episódio como “injustiça”.

Em 2009, o alagoano voltou a sentir a sensação de ser chamado de presidente – da Comissão de Infraestrutura do Senado. Era uma redenção. Em 2010, foi reeleito pelo PTB para um mandato até 2017.

Hoje, Collor integra a CPI do Cachoeira, senta ao lado dos antigos acusadores e aponta o dedo para a corrupção.

caras-pintadas
No dia 18 de setembro de 1992, os jovens caras-pintadas foram às ruas exigir a saída do então presidente- Eder Chiodetto/Folhapress

Naquele 1992

24 de maio

Pedro Collor, irmão do ex-presidente, detalha à “Veja” o  esquema de PC Farias para arrecadar recursos para a campanha de Collor.

26 de maio

Collor rebate, em rede nacional, as acusações e nega ligação com PC. 

1º de junho

Aberta CPI mista para apurar as denúncias.

28 de junho

“IstoÉ” publica entrevista com Eriberto França, motorista do Planalto, que denuncia esquema de contas fantasma.

3 de agosto

Collor pede ao povo que saia às ruas com as cores da bandeira nacional. Multidão sai, de preto.

23 de agosto

Relator da CPI, Amir Lando (PMDB), entrega relatório favorável ao afastamento.

22 de setembro

Collor apresenta sua defesa à Câmara.

29 de setembro

Deputados aprovam, por 441 votos a favor, 38 contra e 1 abstenção, o processo de impeachment.

1º de outubro

Pedido de afastamento chega ao Senado.

2 de outubro

Collor é afastado. O vice, Itamar Franco, assume.

12 de novembro

Procurador-geral da República, Aristides Junqueira, denuncia Collor pelos crimes de corrupção passiva e formação de quadrilha.

29 de dezembro

Collor apresenta pedido de renúncia, em uma manobra para evitar a cassação e manter seus direitos políticos. Senado ignora e, por seis votos a três, cassa o mandato. O ex-presidente ficaria oito anos fora da política.

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Cecília Lotufo, hoje com 37 anos, ?cou conhecida como a musa dos caras-pintadas. Casada e mãe de dois ?lhos, é dona de uma pizzaria na Vila Madalena, em São Paulo. Aos 17, era aluna do colégio Oswald de Andrade e conta como foi pintar a cara contra Collor.

 Cecília ficou conhecida depois que uma foto sua foi parar nos jornais do dia 12 de agosto de 1992. Foto dela em 2007
Cecília Lotufo na rua em 1992 e em 2007- Eder Chiodetto e Leonardo Wen/Folhapress

Como chegou à passeata da Paulista em 1992?

Um dia antes, conversei com o diretor do Oswald e perguntei se a escola apoiava a ida dos alunos. Ele disse que sim. Fui de sala em sala convocando os alunos. No dia 11, estávamos lá.

E por que pintou a cara?

Foi um ato sem pensar. Peguei o batom e pintei “Fora Collor”. No outro dia, eu estava em todos os jornais. E o ato foi adotado pelos estudantes.

Qual sua atuação política hoje?

Sempre fui ligada à política, mas hoje de forma diferente. Eu acreditava que a saída do Collor seria a solução, mas não foi. Hoje, dirijo uma ONG voltada para o consumo consciente e uma ação de revitalização e preservação de praças.

Ficou decepcionada com os políticos?

Sim. A corrupção é parte de todos os partidos, PT, PSDB, PMDB. Nenhum busca soluções reais para o país. Mas continuo votando.

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