União impulsiona crescimento de mães empreendedoras

Iniciativas nas redes sociais se consolidam como plataformas de divulgação e apoio

Há três anos, Grazi Versatti trocou a rotina de farmacêutica bioquímica para administrar o próprio negócio de aromatizantes de ambientes e cosmética artesanal. Mãe do pequeno Rafael, hoje com cinco anos, e de Angelina, que nasceu em 2016, a empreendedora ressalta a qualidade do tempo que passa ao lado dos filhos desde que deixou o mundo corporativo.

No ano passado, já com os negócios caminhando bem, Grazi sentiu a necessidade de se conectar com mães, que assim como ela, se lançaram no empreendedorismo. Foi aí que nasceu o Divulga Moms. Um grupo formado no Facebook que liga empreendedoras e consumidores e, que com um ano e meio já conta com mais de 11 mil participantes.

"Posso dizer que o grupo virou um empreendimento paralelo. Eu não ganho dinheiro cobrando nada de ninguém, mas o grupo em si me permite mostrar bem meus produtos. Lá as pessoas se divulgam de graça. Dá trabalho manter tudo bonitinho, organizado e na gentileza, mas é meu terceiro filho. Faço com orgulho e muito amor", conta.

Mais do que conectar quem precisa vender e quem quer comprar, o "Divulga" se tornou um ambiente de apoio e motivação para mães que encontraram uma emancipação no empreendedorismo. Além de Grazi, o marido, Marcelo, e mais três mães cuidam da administração, que já ultrapassa o meio online e atua na organização de bazares e feirinhas gastronômicas.

Redes sociais

A party designer Debora Rodrigues, mãe de Laura, é ativa no grupo. Ao lado de uma amiga, ela administra uma empresa de decoração de festas há dois anos e confirma a importância da interação nas redes sociais. "Os grupos são primordiais. É de onde vêm cerca de 90% dos nossos clientes. São grupos de bairro, de mães, de pediatria, entrei em todos que achei pertinente. Sigo uma rotina de postagem de propaganda e estou sempre atenta quando pedem contato de decoração", explica.

Para a professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Viviane Narducci, a união e cooperação promovidas a partir de iniciativas como a de Grazi são um dos segredos para se alcançar sucesso no empreendedorismo. "Está mais do que comprovado que competição e fatores isolados levam muito mais tempo para se chegar onde quer. Se a mulher sofre mais preconceito, se tem mais dificuldade em se estabelecer, a primeira coisa é unir forças. O dia em que as mulheres perceberam a força que existe nessa parceria o empreendedorismo feminino vai extrapolar."

Mulheres em alta 

Impulsionado por histórias como as de Grazi e Debora, o empreendedorismo feminino tem crescido no Brasil e no mundo. Enquanto a maioria dos países apresentam índices discrepantes entre homens e mulheres à frente de negócios, por aqui a situação se acentua cada vez mais.

A pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) de 2016, realizada pelo Sebrae, apontou que o número de empreendedoras em etapa inicial é de 19,9% ante 19,2% de empreendedores. Nos EUA, por exemplo, o número de homens corresponde a 14,8% enquanto o de mulheres está mais de quatro pontos percentuais abaixo (10,5%).

Segundo Viviane, a mulher empreende por duas razões primordiais: necessidade e flexibilidade. Hoje, quatro em cada dez lares brasileiros são chefiados por mulheres e em um momento de crise, com contratações reduzidas, cresce a importância de atividades profissionais desenvolvidas em casa e com alternativas de horário.

Mães resistem ao preconceito

Uma pesquisa da FGV revelou que metade das mulheres entre 25 e 35 anos que se tornaram mães foram demitidas até dois anos após o fim da licença-maternidade. Se a insegurança já acomete quem está estabelecida no mercado de trabalho, a apreensão é ainda maior entre aquelas que buscam emprego e encaram perguntas que passam longe do preparo profissional.

"Com quem seus filhos vão ficar?", "E se eles ficarem doentes?", "Onde eles ficam nas férias escolares?" são questionamentos comuns entre recrutadores que em parte, infelizmente, ainda enxergam a maternidade como um empecilho para o desempenho na carreira.

Flavia Duprat, que hoje se divide na administração de três empreendimentos, esperava Valentina quando ouviu do chefe um uma multinacional de informática que teria as promoções adiadas enquanto não "resolvesse" a gravidez. O relato dela não pode ser tratado como “mais um”, em uma estatística que cresce a cada dia.

Emocionada, Alessandra Ramos de Araújo relembra o momento que vivenciou durante a gravidez de Rafa, hoje com 11 anos. Ela conta que enfrentou uma gestação de risco em que teve descolamento de placenta e em uma mudança do escritório da empresa, falou que não conseguiria carregar uma máquina. Como resposta, escutou de uma diretora que "gravidez não era doença ou um impeditivo dos braços".

Alessandra permaneceu por algum tempo no trabalho, mas se redescobriu no empreendedorismo e hoje administra uma empresa de artigos de papelaria. Com as lembranças de anos difíceis guardadas na memória, ela comenta a rotina de preconceito que enfrentava. "Saber que eu posso ser mais do que tudo que eu passei, não só durante a gestação, mas dentro do escritório, em um ambiente de trabalho machista e preconceituoso... É incrível saber que hoje eu posso ficar perto do meu filho e ter meu dinheiro", desabafa.

Preconceito: mães relembram frases que ouviram no trabalho

Mas, infelizmente empreender ainda não é sinônimo de se livrar do preconceito. Mães relatam que mesmo com a rotina exaustiva, tem quem ainda acha que trabalhar em casa é apenas uma forma de ocupar o tempo. A própria Grazi, que criou o Divulga Moms, escutou de um parente que era uma "encostada".

Karen Silva, que administra um negócio de aluguel de brinquedos para festas, também desabafa que a incompreensão começa principalmente por pessoas próximas. "Os preconceitos partem dos amigos e familiares, que acham que ser empreendedor não é trabalho, que você está a disposição para 'quebrar galhos' de todos, pois afinal você não faz nada, não é mesmo?", comenta.

Já Patrícia Martins, faz questão de mostrar que a situação vai além. Dona de uma agência de publicidade, ela salienta as histórias que reforçam o preconceito sobre a questão de gênero. "Infelizmente vivemos num país extremamente machista e essa é uma realidade que muita gente nega. Quando tenho clientes homens, cansei de enviar artes para serem aprovadas e nunca são. Se falo que pedi ajuda para um colega e depois reenvio, magicamente as artes, que eu fiz, são aprovadas!", relata.

Se encontrar para empreender

Mesmo que não exista uma receita para alcançar sucesso no empreendedorismo, adotar algumas atitudes ajudam a encontrar o caminho certo. Quem "chegou lá" destaca que estudar as áreas e encontrar seu tipo de empreendimento é o principal. Mas, manter a curiosidade e o entusiasmo aguçados, se organizar financeiramente, ter facilidade para se adaptar e a teimosia para superar os "nãos" que surgirem no meio do caminho também estão entre as dicas de ouro.

Amanda Santos, mãe das gêmeas Alice e Evey, passou pela produção de chinelos, bordados para peças de decoração e roupas infantis estampadas até se firmar na estamparia de ecobags. Para ela, o suporte de uma consultoria foi essencial na consolidação de uma estratégia para não desistir da profissão. Em três meses, os lucros duplicaram e, hoje, diz nunca ter se sentido tão realizada como se sente no empreendedorismo.

"O que funciona para os outros, o que é moda, não quer dizer que vai dar certo para você. Invista mais no seu desenvolvimento pessoal, estude mais antes de investir, isso que vai te fazer se encontrar. Desde que comecei a empreender tive e tenho muito incentivo de outras mulheres, isso é um dos grandes motivos que me faz acreditar que estou no caminho certo, essa identificação mútua com as clientes gera uma conversa além da negociação, a gente se conhece melhor e se afeiçoa àquela pessoa, causa, empresa", comenta.

Assim como para Amanda, o autoconhecimento foi determinante para Tatiane Calazans se estabelecer. "Acredito que eu não seja a única mãe que já tentou várias opções após a maternidade. Como tentei o mercado corporativo várias vezes, também empreendi no mercado de doces, vestuário, da beleza. As pessoas sempre acham que é só mais uma coisa que estou inventando, e que faço por hobby. Afinal, estou em casa enquanto meu marido trabalha e as crianças estão na escola", diz.

No caso dela, as sessões de coaching a auxiliaram até se encontrar no ramo de desenvolvimento de pessoas. Mãe de Pedro e Cecília, a empreendedora é direta ao responder qual conselho daria para si quando ainda tinha dúvidas sobre o empreendedorismo: "Por que você não começou antes?". 

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