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Atualizado em sexta-feira, 24 de outubro de 2014 - 19h57

Os quatro séculos de Manaus

Em 345 anos de história, Manaus passou da capital da selva amazônica para maior cidade da região Norte
Manaus / Reprodução Manaus Reprodução

Manaus completa hoje, 24 de outubro, 345 anos. São mais de três séculos de história que transformaram a capital do Amazonas e da selva amazônica em 1669 na metrópole e maior cidade da região Norte do Brasil atualmente.

 

São pouco mais de dois milhões de pessoas habitando a cidade, em uma extensão de mais de 11 mil metros quadrados. A cidade tem uma economia focada no setor primário (extração vegetal, mineral e animal), no turismo, nas indústrias do Polo Industrial de Manaus e na biodiversidade da região.

 

Segundo dados do IBGE, Manaus possui uma frota veicular de mais de 580 mil veículos, cerca de 720 indústrias de televisão e motos a concentrado de bebidas, orçamento municipal de R$ 4 bilhões, PIB de R$ 51 bilhões – o sexto maior do Brasil - e ocupa a 850º posição do IDH.

 

Para chegar a esse patamar, Manaus passou por um processo de crescimento econômico destacado pela era da borracha, quando os primeiros monumentos, prédios e portos foram construídos, até a Zona Franca de Manaus, que provocou o crescimento populacional.

 

Manaus foi criada no século XVII para demonstrar a presença lusitana e fixar domínio português na região amazônica, que na época já era considerada posição estratégia em território brasileiro. O núcleo urbano, localizado à margem esquerda do Rio Negro, teve início com a construção do Forte da Barra de São José, idealizado pelo capitão de artilharia, Francisco da Mota Falcão, em 1669, data que foi convencionada a usar como o nascimento da cidade.

 

A Amazônia, de posse espanhola pelo Tratado de Tordesilhas, em 1494, manteve-se inexplorada até o século XVI, quando se tornou alvo de interesse de holandeses, franceses, ingleses, irlandeses e, principalmente, de portugueses, que saíram em 25 de dezembro de 1615 de São Luís do Maranhão e chegaram ao Pará, onde em 1616, instalaram na baía do Guajará o Forte do Presépio, nome que fazia referência ao dia da saída do Maranhão.

 

Desta forma, ocuparam a hoje cidade de Belém e a denominaram de Santa Maria de Belém, cuja função era controlar toda a região da bacia amazônica e ocupar as terras de propriedade espanhola. O Estado do Grão-Pará e Maranhão, criado em 31 de junho de 1751, pelo Marquês de Pombal, com sede em Belém, tinha o objetivo de demarcar as fronteiras portuguesas, efetivando o acordo feito com a coroa espanhola em 1750, o Tratado de Madri. Que diferente do Tratado de Tordesilhas, que dividia o hoje território brasileiro, fundamentava-se no princípio jurídico de uti possidetis, em que “cada parte há de ficar com o que atualmente possui”.

 

Ao redor do Forte de São José do Rio Negro se desenvolveu o povoado do Lugar da Barra, que por conta da sua posição geográfica passou a ser sede da Comarca do São José do Rio Negro. Em 1755, por meio de Carta régia, a antiga missão de Mariuá foi escolhida como capital, passando a se chamar vila de Barcelos, anos mais tarde a sede foi transferida para o Lugar da Barra.

Fonte: Prefeitura de Manaus

 

 

Durante esse período, o Amazonas passou por transformações políticas, como Capitania de São José do Rio Negro mudando para Província do Amazonas em 1850, e instituição do primeiro governador, Tenreiro Aranha. Nesse processo, e com a instalação dos primeiros comandantes da região, a capital do Amazonas mudava com frequência. Até 1791, a sede da Capitania era Barcelos. Lobo D’Almada mudou para o Lugar da Barra (Manaus) nesse ano. Em 1799, a capital voltou a Barcelos por imposição de D. Francisco de Souza Coutinho.

 

A partir de março de 1808, o Lugar da Barra voltaria a ser sede da Capitania do Rio Negro. Em 1832, a capital passou a se chamar Vila de Manaus. Em 24 de outubro de 1848, o nome ficou como Cidade da Barra do Rio Negro. Com a elevação do Amazonas à categoria de Província, em 1850, a sede transformou-se em Vila da Barra do Rio Negro. Somente em 1856, o governador Herculano Ferreira Pena mudou o nome da capital para Cidade de Manaus, em homenagem aos índios da tribo Manaós.

 

Foi durante essa parte da história de Manaus que aconteceu a Cabanagem, uma revolta popular que aconteceu entre os anos de 1835 e 1840 na província do Grão-Pará (região Norte do Brasil, atual estado do Pará). Recebeu este nome, pois grande parte dos revoltosos era formada por pessoas pobres que moravam em cabanas nas beiras dos rios da região. Estas pessoas eram chamadas de cabanos.

 

Os manifestantes protestavam contra a elite política e tomaram o poder. A entrada da Comarca do Alto Amazonas (hoje Manaus) no movimento foi fundamental para o nascimento do atual estado do Amazonas. Durante a Cabanagem, os cabanos exploravam a região em busca de povoado para integrar ao movimento, ocorrendo uma integração das populações.

 

 

O país se tornou a República Federativa do Brasil em 15 de novembro de 1889. Com isso, a província do Amazonas se tornou Estado do Amazonas e constituiu Manaus como capital, na época conhecida como Manáos. Durante esse período, a cidade registrou um crescimento populacional e econômico após a demanda mundial por borracha. A cidade possuía uma reserva extensa da matéria-prima e precisava de mão-de-obra para comandar a retirada do látex, e por isso, iniciou-se um processo de migração para Manaus de nordestinos, paulistas, cariocas, ingleses, franceses, portugueses, italianos e espanhóis, gerando crescimento demográfico e mudanças significativas.

 

Entre os anos 1890 e 1910, a capital e o estado passaram por um período conhecido como a época áurea da borracha, comandada pelo governador do Amazonas Eduardo Ribeiro, que criou um plano de evolução para o local. Foi nessa época que Manaus recebeu serviços de transporte coletivo (bondinhos), telefonias, eletricidade e água encanada, além de serem construídos portos, para receber navios de fora do país, e os prédios que são conhecidos até hoje, como o Teatro Amazonas.

 

Manaus se transformou uma metrópole moderna no meio da floresta amazônica. Na cidade, passeavam importantes personalidades do Brasil e da Europa, e por isso, recebia serviços de saúde e infraestrutura comparando-se com a capital da época, Rio de Janeiro. A Amazônia, incluindo o Pará, era responsável por 40% da exportação brasileira. Por isso, a região recebia investimentos em prédios, saneamento e asfaltamento maiores que na região Sudeste. Nessa época, foram construídos o Teatro Amazonas, o Mercado Municipal Adolpho Lisboa, o prédio da Alfândega e o Palácio do Governo.

 

Entretanto, após 1912, os europeus, maiores compradores da borracha, investiram na retirada de sementes de Manaus para plantar em países como Malásia e Ceilão, e na região da África tropical. Com isso, diminuíam os custos de produção e transporte. Logo, o látex da Amazônia perdeu valor e a região iniciou um processo de estagnação da economia. A crise da borracha afetou ainda mais Manaus pelo fato de os empresários e governantes não terem uma alternativa para continuar o crescimento demográfico e econômico, o que resultou na queda da receita, alto índice de desemprego e êxodo rural e urbano.

 

Entre o fim da era áureo da borracha e a instalação da Zona Franca, Manaus passou por um período de baixo crescimento e praticamente abandono durante a fase de transformação do Brasil da Era Getúlio Vargas, para troca constante de presidentes, instalação da nova capital do país Brasília e da ditadura militar.

 

Dez anos depois da instalação da Zona Franca de Manaus, a cidade passou por uma transformação semelhante ao registrado na era áurea da borracha. O Decreto-Lei nº 288, de 28 de fevereiro de 1967 reformulou o modelo criado em 1957, e estabeleceu incentivos fiscais por 30 anos para implantação de um polo industrial, comercial e agropecuário na Amazônia, com fábricas instaladas na capital do Amazonas. Com isso, muitas empresas chegaram a Manaus precisando de mão-de-obra, o que ocasionou uma migração de outras cidades brasileiras para a região das novas fábricas.

 

A Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) divide o modelo em cinco fases. A primeira, de 1967 a 1975, tinha uma política industrial caracterizada pelo estímulo à substituição de importações de bens finais e formação de mercado interno e ficou conhecido pela vinda de pessoas de outras cidades para comprar produtos que não podiam ser importados com preços mais baixos.

 

A segunda, de 1975 a 1990, com a política industrial de referência no país caracterizava-se pela adoção de medidas que fomentasse a indústria nacional de insumos, sobretudo no Estado de São Paulo. A terceira, de 1991 a 1996, no qual o modelo ZFM foi obrigado a adaptar-se à nova política industrial de referência do país (abertura para empresas estrangeiras). A quarta, de 1996 a 2002, com o fim da hiperinflação e ajuste ao plano real. E a fase atual, com a ampliação do modelo por mais 50 anos.

 

Com o desenvolvimento, Manaus se constituiu como destino turístico por suas belezas naturais, prédios históricos e atrações culturais. O encontro das águas, o Teatro Amazonas e o boi-bumbá (embora o maior festival seja em Parintins) são alguns pontos visitados. Mas os turistas também visitam locais modernos, como o complexo da Ponta Negra, a Arena da Amazônia e a Ponte Rio Negro. Em 1970, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Manaus tinha 175 mil habitantes, enquanto em 2014 são 2 milhões.

 

Nos últimos quarenta anos, Manaus, ao lado de Cuiabá (MT), foi uma das cidades que mais cresceu economicamente no país, que também provocou o aumento da população. Hoje, Manaus tem o sexto maior Produto Interno Bruto (PIB) do país e a sétima maior população. Segundo uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Manaus é a melhor cidade para crescer profissionalmente da região Norte. Escolhida uma das 12 cidades-sede da Copa do Mundo, a capital do Amazonas é destino turístico do Brasil e possui o quinto aeroporto mais movimentado do país. Além de receber muitos visitantes, a cidade também possui voos diretos para Miami (EUA) e Lisboa (Portugal). Manaus foi criada em 1669 como uma cidade entre a fauna e flora da região amazônica e se transformou em uma metrópole e maior cidade da região Norte.