Estudante é suspensa após levar filha à universidade

Menina costuma ficar em creche, mas falta d´água obrigou escolinha a dispensar as crianças; mãe foi perseguida por seguranças em campus

Sem ter com quem deixar a filha pequena, uma estudante de Direito sofreu constrangimento e recebeu uma suspensão após levar a criança para o campus de sua universidade, na última quinta-feira (22), em São Paulo.

Alline Gomes é mãe de Valentina, de dois anos e quatro meses, e todos os dias sai de casa, na Estrada de Itapecerica, zona Sul da capital, para levar a menina ao Brooklin, bairro onde fica a creche em que a pequena é cuidada em período integral. Depois, segue para a Uninove Santo Amaro, sempre usando o transporte público.

Nesta semana, por causa de falta d´água, a jovem de 25 anos só conseguiu deixar a filha na escolinha na segunda-feira (19).  Nos outros dias, a creche não teve condições de atender às crianças e Alline se virou como pôde organizando a agenda e pedindo ajuda aos conhecidos.

Na manhã de quinta-feira, data marcada para entregar um trabalho na  faculdade, ela não teve outra escolha: mesmo com a chuva forte que atingiu a cidade, pegou Valentina, o guarda-chuva, sua mochila, a bolsa com as coisas da pequena, e foi direto para a universidade, já que não havia ninguém para cuidar da menina.

“O mundo caindo com a chuva e eu estava atrasada por causa da minha filha. Entro às 7h50, mas cheguei à faculdade por volta de 8h30, pela entrada do Terminal Santo Amaro. Ali já fui barrada. Um segurança disse que eu não podia entrar e o outro já ficou na minha frente. Fui ao balcão conversar com uma funcionária, que foi extremamente arrogante e disse que ali não era berçário”, contou a estudante ao Portal da Band.

Alline, que precisava trocar a fralda da filha, não teve dúvidas: passou seu crachá pela catraca e, sem olhar para trás, procurou um banheiro. “Só ouvi um segurança gritando no rádio: segue ela, fica atrás dela.”

Perseguida pelos seguranças, a estudante sentiu vergonha ao ser encarada pelos outros alunos enquanto usava a escada rolante para chegar ao terceiro piso do prédio onde tem aulas.

“Uma monitora do andar quis falar comigo, mas entrei no banheiro, troquei minha filha e joguei uma água no rosto, porque já estava nervosa. Respirei. Quando saí, tinha um monte de gente me esperando, como se eu tivesse roubado alguma coisa, com um segurança gritando para eu ir embora”, lembrou.

Suspensão dada à Alline após a confusão. Foto: Arquivo pessoal


A monitora foi mais solidária e pediu desculpas a Alline pela confusão, disse que era mãe também, mas que não sabia como agir naquela situação, porque a Reitoria era extremamente rígida com as regras. Ainda pressionada pelo segurança, a universitária foi para a sala de aula, apenas para receber mais uma negativa da sua professora de Direito Penal.

“Ela não me deixou nem entrar e me disse que eu era estudante de Direito, que ali não era lugar para criança, e fechou a porta. Aí, os seguranças começaram a rir da minha cara.”

A essa altura, um pequeno tumulto, formado por ao menos três seguranças, a monitora, e vários alunos havia se formado ao redor de Aline, que decidiu ir para a coordenadoria do seu curso. “Não sei de onde saiu tanto aluno, estava perto da hora do intervalo. Era gente com o celular na mão, comentando. Foi horrível.”

Alline explicou à sua coordenadora, Clarice Moraes Reis, que aquela era uma situação atípica, mas não adiantou: a professora disse que as regras tinham de ser seguidas. “Chorei, passei um bom tempo conversando na sala dela. Por ser mulher ela foi mais educada, calma, mas mesmo assim me deu um suspensão que era para ser de três dias, mas ficou em apenas um. Falou que qualquer problema meu tinha que ser comunicado a ela, com antecedência de dois dias. Como eu vou adivinhar que terei um problema?”

Após a conversa com a coordenadora, mais uma vez a universitária foi escoltada até saída pelos seguranças. “Foi um constrangimento que nunca passei na vida, com minha filha no colo. Quando eu saí da faculdade, sentei na escadaria da porta e chorava, chorava de nervoso. Me senti muito impotente”, que além de não ter conseguido assistir à aula também não entregou o trabalho para outra professora.

Procurada pela reportagem, a assessoria do Ministério da Educação afirmou que não tem poder para intervir nesse tipo de situação e que as instituições de ensino superior fazem suas próprias regras em relação à entrada de filhos de alunos em suas dependências.

Questionada sobre o caso, a Uninove esclareceu que possui um regimento interno que regulamenta a entrada e permanência de terceiros em seus domínios. "Para garantir a segurança e integridade das crianças, que eventualmente visitem as nossas instalações, exige-se a identificação do menor antes de sua entrada no campus, um ambiente universitário, frequentado por adultos", declarou a universidade através de sua assessoria de imprensa.

Em nota, a Uninove disse ainda que a aluna se recusou a seguir as normas do regimento, deixando de atender à solicitação dos colaboradores da instituição que "gentilmente solicitaram à aluna que seguisse os procedimentos de identificação da menor e aguardasse a autorização para entrada."

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