Roupa social dos taxistas: por que ela virou padrão

Imagem de elegância de décadas passadas e valorização da categoria estão por trás de novas regras da Prefeitura de São Paulo

Desde o dia 18 de janeiro, os motoristas de táxi de São Paulo têm prestado atenção especial às roupas que vão usar para trabalhar. Estão "mais alinhados", como diriam algumas vovós, por causa de uma nova portaria da Secretaria Municipal de Transportes.

Segundo a pasta, os taxistas que atuam na capital devem usar, na composição mais despojada, calças jeans escuras com camisa social de manga curta ou longa (sem estampas), sapatênis ou sapato. Eles também podem optar pelo traje social completo, que inclui blazer nos dias mais frios. Às mulheres, a opção oferecida é o clássico tailleur.

Para motoristas de táxis de luxo, o uso de terno ou smoking é obrigatório. Quem quer mais glamour paga o preço: as tarifas destes profissionais são 50% mais altas.

Se a roupa é uma escolha bastante pessoal – que o diga Agostinho Carrara -, a portaria pode parecer bastante ditatorial em alguns pontos, como naquele em que diz para os taxistas manterem "a camisa abotoada, exceto o botão do colarinho".

A Prefeitura de São Paulo, porém, informa que a portaria não foi imposta. As normas de conduta e de traje foram produzidas, debatidas e aprovadas por entidades da categoria, na Câmara Temática do Serviço de Táxi do Conselho Municipal de Trânsito e Transporte.  

Agostinho, de "A Grande Família": o taxista mais espalhatoso da ficção. Divulgação/Globo


Segundo o Sinditaxi (Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo), a medida para deixar os taxistas mais arrumados não deve causar muito sofrimento. A entidade diz que mais de 60% dos profissionais já trabalhavam vestidos como ditam as novas regras. 

"Queremos melhorar o serviço de táxi em São Paulo e torná-lo uma referência no mundo. A questão da vestimenta faz parte desta estratégia de valorização", afirmou a assessoria do sindicato ao Portal da Band.

Reginaldo Fermino, de 45 anos, trabalha há uma década como taxista, mas já utilizava a roupa social no dia a dia antes da portaria. "Acho que ajuda no contato com o cliente. Para mim, não mudou nada", afirma.

Já seu colega, Ailton Santos,  de 44 anos, costumava dirigir de calça jeans, tênis e camiseta. Ele, que abraçou a profissão há apenas um ano, diz que estranhou um pouco a mudança. "Fazer o quê? Tem que se adaptar. Acho que (o modo de vestir) poderia ser à vontade pelo menos aos finais de semana", opina.

Por que camisa e sapato?

O conceito do que é estar bem vestido é relativo, e varia muito dependendo da época e sociedade em que se vive. Então por que, em pleno século 21 e em um país quente como o nosso, usar calça, camisa, terno e gravata continua sendo considerado um sinal de elegância?

Segundo a professora de História Denise Bernuzzi, da PUC-SP, a sociedade brasileira ainda mantém a ideia dos anos 1950 sobre o que é ser elegante, baseada na produção de Hollywood daquele período - por isso a escolha do traje social para padronizar certas categorias. 

"Havia uma ideia de que era preciso ser elegante. Hoje o que prevalece é o conforto individual, ou então a atração sexual. A elegância caiu em descrédito em grande parte da população", explica a historiadora.  

Cary Grant em cena do filme "Intriga Internacional", de 1959. Foto: Reprodução/Warner Bros


Uma enquete realizada pelo Portal da Band no Twitter corrobora a visão da professora. Perguntados se deixariam de pegar um táxi se o motorista estivesse sem roupa social, 83% dos internautas deram "não" como resposta.

Denise afirma que a liberdade de se vestir é uma conquista recente para os brasileiros, adquirida há pouco mais de 40 anos, por isso é muito valorizada. Apesar disso, ela defende que haja uma padronização na apresentação de quem presta serviços públicos, como forma de preservar os clientes.

"O problema é exacerbar a ideia de liberdade e achar que se pode fazer tudo que quiser. O taxista, ao mesmo tempo que é livre, presta um serviço público, então algumas normas ele precisa cumprir", explica.  "Eu não abraço a ideia de um detalhamento da portaria, que tem de ser assim ou assado. No máximo, acho que (o taxista) está servindo a população, então tem que se vestir de uma maneira que não agrida."

Sem acidentes na moda nem na direção

Quem está acostumado a usar camiseta, tênis e calça jeans pode estranhar ter que aderir ao sapato e camisa. Segundo especialistas, porém, o traje social não interfere na direção.

"Tecnicamente, tem que ser uma roupa confortável. Tudo que incomoda tira a concentração", afirma Roberto Manzini, fundador da escola de pilotagem que leva seu nome. "Paletó não tem problema, desde que seja na medida certa e não limite os movimentos." 

Os calçados também não representam mudança significativa na qualidade de direção. "Uma sola de borracha, do sapatênis, normalmente propicia maior aderência, e a de couro, do sapato, menos. Mas é importante que o pedal do carro esteja bem conservado, emborrachado, o que fará que a aderência aumente", afirma José Aurélio Ramalho, diretor-presidente do Observatório Nacional de Segurança Viária.

No caso das mulheres, os saltos altos podem deixar a sola do pé distante do pedal, com o risco de que a motorista perca o grau de sensibilidade.

"O ideal é que o calcanhar esteja apoiado no assoalho do carro, para criar uma alavanca na hora de apertar o pedal, exigindo menor força. No caso do salto alto, o calcanhar fica mais distante do assoalho", explica Ramalho.

"O Código de Trânsito não proíbe que ela dirija de salto", acrescenta Manzini. "O que a motorista tem que ver é que o salto não interfira na segurança. Não pode aquele alto demais, que enrosca, ou tipo Anabela, mas temos casos de alunas que dirigem muito bem de salto alto", garante o instrutor.

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