Instalação analisa a censura da pornochanchada

Cineasta pesquisou documentos e mais de 150 filmes para descobrir como esse cinema foi tão popular na época mais conservadora do país

Até o dia 27 de março, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS) apresenta a instalação artística Prazeres Proibidos, na qual o espectador é apresentado à curiosa e inesperada relação entre a pornochanchada - gênero do cinema brasileiro que explorou o erotismo, a comédia e as piadas populares - e a Ditadura Militar (1964-1985).  

“A pornochanchada é completamente contemporânea da Ditadura. O AI-5 foi decretado em 1968 e, em 1969, as primeiras produções desse cinema começaram a surgir”, conta a cineasta Fernanda Pessoa, responsável pela pesquisa, ao Portal da Band

O fato de essa relação ser tão contraditória foi o que atraiu a cineasta para o assunto. “Queria saber como isso foi possível e acho que o que responde essa pergunta é o fato de que os gêneros de cinema anteriores, o Cinema Novo e o Cinema Marginal, não condiziam com o Brasil que os militares queriam mostrar.” 

Os primórdios da pornochanchada, lembra Fernanda, eram quase como uma propaganda de um Brasil mais agradável. “Os primeiros filmes eram bem inocentes, na verdade. Pareciam mais com as chanchadas da década de 1950. Tudo era leve, não tinha nudez, no máximo algumas piadas, e o brasileiro era retratado como um bon vivant. Isso tudo fez muito sucesso e, aos poucos, os cineastas foram investindo nessa linguagem que funcionava muito bem.”  

Com essa carta na manga, os diretores da época puderam trabalhar com mais liberdade – diferente de seus colegas do Cinema Novo e do Cinema Marginal, perseguidos pela Ditadura. Dessa forma, os roteiros começaram a ficar mais, digamos, picantes. “Pouco a pouco eles [cineastas] foram puxando os limites para ver até onde poderiam ir. Gradualmente, começou a surgir um peito, depois dois, na sequência uma simulação de sexo. Ao mesmo tempo, o público ia respondendo muito bem àquilo e, quanto mais davam, mais o espectador queria”, afirma Fernanda.

Censura


Pode parecer mentira, mas a pornochanchada foi, sim, alvo da censura dos militares. “As pessoas pensam mais na censura política, mas também existia uma censura moral. O que poderia confundir o que a Ditadura chamava de 'valores dos cidadãos brasileiros' era censurado”, diz Fernanda. O filme Bonitas e Gostosas, por exemplo, teve uma cena cortada por mostrar um homem vestido como mulher "fazendo movimentos eróticos" com outro personagem. “Até existiam personagens homossexuais nos filmes, o que não poderia haver era alguma atividade entre eles”, explica. 

Muitos filmes da pornochanchada foram barrados pelos militares e impedidos de serem exibidos, principalmente na época do auge da repressão. “Quase todos os filmes passaram por algum perrengue. Era um processo bem burocrático e alguns cineastas usavam certos truques para que suas produções passassem. Era comum que cenas muito ousadas fossem gravadas para servir como moeda de troca. Eles sabiam o que seria cortado, então, usavam isso para que as cenas que eles queriam no filme fossem liberadas”. 

Assim como compositores da MPB, que faziam jogo de palavras – como, a título de exemplo, a letra de Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil - os diretores de cinema tinham seus métodos. “Um meio de burlar a censura também foi encontrado com uma linguagem cinematográfica chamada voice-out. Funcionava assim: quando uma palavra, normalmente um palavrão, era censurado, os diretores cortavam o áudio, mas mantinham as imagens. Dessa forma, o público conseguia entender o que era dito através da leitura labial; era perceptível, também, que ali havia uma censura, porque não tinha som. Era uma tiração de sarro da parte dos cineastas, que queriam mostrar o quanto aquilo tudo era ridículo”, observa.


Pornopolítico


Alguns filmes, principalmente os produzidos em São Paulo, conseguiam burlar tão bem a censura que até alguns temas impensáveis eram exibidos nos cinemas brasileiros. É o caso de E agora José? Tortura do Sexo, que traz um personagem cuja amizade com um sujeito considerado subversivo para os militares o faz ser perseguido e preso. 

“É um filme de 79, não era o auge da repressão da Ditadura, mas, mesmo assim, é impressionante como o filme trabalha com temas bem politizados. Tem até uma cena de tortura praticado por um grupo de militares. Esse tipo de produção ganhou até um subgênero na época, o pornopolítico, porque também continha cenas eróticas com as mulheres presas”, pontua Fernanda.

Outro filme que exemplifica bem esse paradoxo é O Enterro da Cafetina. Anos antes do decreto do AI-5, em 1971, Jece Valadão produziu a obra e a estrelou, na pele de um personagem que é convencido a ingressar na guerrilha urbana, chegando a praticar atos de terrorismo da época como jogar um coquetel molotov na casa de um deputado. “O personagem do Valadão ainda fala sobre golpe militar, dizendo que o presidente foi deposto. O filme sofreu censura, mas no que diz respeito ao personagem de um delegado, que é retratado de uma forma bem ridícula”, recorda. 

Enterro da Cafetina
Cena de O Enterro da Cafetina

Pesquisa 


Em uma pesquisa que já dura quatro anos, Fernanda Pessoa analisou centenas de documentos e mais de 150 filmes da época, principalmente da década de 1970. Tal levantamento não foi tarefa fácil. “Os próprios filmes são difíceis de achar. Fiz uma lista de filmes com os quais queria trabalhar e tive acesso a 50% apenas. Muitas dessas obras foram perdidas”, conta a cineasta. 

Já com relação às cenas censuradas, Fernanda diz que algumas produções foram liberadas, anos depois, em versão integral. “Outras consegui porque, na época da Ditadura, eles não cortavam o filme do original, normalmente era uma cópia”, explica. 

Na pesquisa, ela também conseguiu ter acesso a documentos em que os censores detalhavam quais cenas seriam impedidas de serem exibidas nos cinemas. “Com essa lista em mãos, comecei a analisar os trechos cortados para tentar entender a cabeça dos censores.” 

As cenas proibidas, bem como arquivos da Ditadura, estão expostas em um dos ambientes da instalação. No primeiro deles, o visitante se depara com um projetor 35mm que roda em falso projetando apenas a sua luz, sem nenhuma imagem. Em seguida, a artista apresenta um corredor com uma seleção de documentos oficiais da censura. No terceiro e maior dos ambientes encontra-se uma sala de projeção digital onde é exibido um vídeo em seis telas montado apenas com trechos de filmes que foram cortados a pedido dos censores.

A exposição surgiu como um desdobramento do primeiro longa-metragem de Fernanda, Histórias que nosso cinema (não) contava, que faz uma releitura histórica dos anos 1970 a partir de imagens de filmes da pornochanchada e se encontra em fase de finalização. Em 2015, a cineasta e artista foi uma das selecionadas pela residência NECMIS, do MIS.

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