A morte é inspiradora, diz organizador de evento sobre o fim da vida

Objetivo dos encontros é "acordar" as pessoas para a vida: "É uma oportunidade de se viver melhor", diz idealizador

Já imaginou passar uma semana debatendo assuntos relacionados à morte? Pois é isso que o evento inédito “Inspirações sobre vida e Morte” vai promover a partir do dia 24 de setembro, em São Paulo.

Ao contrário do que muita gente pensa, o assunto não é visto como “mórbido” e sim como “inspirador”, nas próprias palavras de um dos idealizadores do evento, Tom Almeida. O homem, que trabalha com desenvolvimento humano, disse que a ideia é dar um “sacode” nas pessoas e acordá-las para a vida. Serão diversas atividades com diferentes ângulos para ajudar no debate sobre o tema.

“A morte coloca tudo em perspectiva. Não preciso esperar um resultado do médico para fazer algo, posso praticar desde já. É uma oportunidade de se viver melhor”, explicou.

Ao Portal da Band, ele compartilhou a história que o inspirou a olhar de perto a morte, sem medo e sem tabu. Na entrevista, Tom também afirmou que há um movimento global acontecendo para discutir o assunto, mas que o Brasil ainda está muito atrasado. Confira abaixo:

Como surgiu a ideia?

Já faz um ano e meio. Existe um movimento global para se falar sobre a morte, de começar a olhar como é importante a gente entender que ela faz parte da vida e não fugir disso. Com isso, a gente traz muita consciência e valor para a vida.

Você teve uma experiência pessoal que te motivou. Como foi?

Acompanhei um primo, do Rio de Janeiro, que faleceu de câncer aos 41 anos. Durante o processo todo, fui vendo como as conversas eram importantes, como falar sobre o que estava acontecendo era importante. As pessoas ao redor, família e amigos, evitavam ao máximo. Eu era um dos poucos que estava disposto a falar sobre isso: “o que está acontecendo, quais são seus medos? Quais são desejos, qual legado vai ficar?”. Era uma doença terminal, não havia mais cura.

Hoje, no geral, o que a Medicina e as pessoas fazem é dizer “não há mais nada o que ser feito”, e aí você abandona a pessoa. Na verdade, não há nada o que ser feito para doença e tratamento, mas para o paciente existe muita coisa a ser feita.

Como foi o processo?

Foi chocante e aconteceu aos poucos, por meio de conversas. A primeira que ele teve com a esposa, ela não estava preparada, não queria falar sobre isso. Com o tempo, as pessoas foram entendendo o que estava acontecendo e aceitando, no sentido de olhar “isso é a realidade, não tem como mudar”. O que posso mudar é a forma que me relaciono, a forma que me porto sobre o que está acontecendo. Posso mudar o significado, posso mudar o olhar. A morte não, mas todo resto posso mudar.

Pode ser mais fácil se a gente – e é o que eu acredito piamente - realmente aceitar e olhar que isso vai acontecer. Hoje, o que a gente sofre é pelo entorno. A morte é algo triste e que vai causar dor, mas a ausência de conversa, de não saber o que o outro quer, sem olhar para os desejos e para a vida que está levando, os arrependimentos... Tudo isso causa muito mais sofrimento.

Como você começou a se envolver com os projetos?

Comecei a conhecer pessoas, médicos e profissionais que estão envolvidos no assunto. Já faz mais de um ano que criei um projeto no Belas Artes, o Cine Clube da Morte, que ocorre uma vez por mês. Criei ao lado da doutora Ana Cláudia Quintana, bem envolvida no assunto. As salas estão sempre lotadas e, muitas vezes, os ingressos se esgotam antes do dia da sessão. A gente assiste ao filme e depois fala sobre a morte.

 Cine Clube
Tom Almeida ao lado da doutora Ana Cláudia Quintana durante sessão do Cine Clube da Morte - Reprodução/Facebook


Qual é o público?

Bem misturado. A gente faz uma "pesquisa" informal nos dias do cinema e cerca de 50% são da área médica, da Saúde. Mas os outros 50% são interessados no assunto por diversas questões: já perderam alguém importante, estão vivendo isso no momento ou são por questões filosóficas.

Por qual motivo acredita que hoje exista um movimento global para debater a morte?

Foi essa percepção que tive durante um evento nos Estados Unidos, no ano passado, com a doutora Ana Cláudia, que falava sobre os diferentes olhares sobre o fim da vida e como mudar promovendo uma nova experiência. Lá tinham arquitetos, designers e empreendedores. Todo mundo olhando para morte de uma outra forma. Caiu uma ficha: tem essa revolução global acontecendo e nós, no Brasil, estamos a 30 anos de distância se comparado com a Europa. Somos um dos piores países para morrer. Saiu uma matéria na The Economist, the 2015, listando os melhores lugares para morrer. O Brasil foi ranqueado em 402º lugar nessa lista. Estamos atrás de Honduras e vários outros países.

O que é país ruim para morrer?

É um lugar onde os cuidados paliativos, que é o olhar da medicina que traz conforto, é quase inexistente. O uso de morfina é baixíssimo pelo preconceito e falta de conhecimento por parte dos médicos. A baixa quantidade de hospice, que são espaços dedicados aos cuidados da pessoa que tem doença em fase terminal. Aqui no Brasil temos cinco ou seis. Hoje nós estamos morrendo em hospitais, sozinhos, em uma UTI [Unidade de Terapia Intensiva], entubados. Hospital não é lugar de morrer.

Por que acha que está ocorrendo essa discussão ao redor da morte?

Nós estamos envelhecendo como população, vivendo cada vez mais. Antigamente, a morte era mais aceita porque, simplesmente, a pessoa chegava aos 40 anos, tinha uma doença (tuberculose por exemplo) e morria. Muitas crianças também morriam porque tinham sarampo, meningite etc. Com a Medicina, a gente foi tomando controle sobre isso, sobre a vida e a morte. O que é ótimo. Não sou contra medicina nem nada, porque evoluímos muito. A gente passou do ponto no sentido de tentar controlar a morte o tempo todo. Existem milhares de pessoas em hospitais que não têm mais o que fazer, e as pessoas ficam tentando estender a vida delas. “Faça tudo pela vida da pessoa”, mas isso só traz mais sofrimento. Como estamos vivendo mais, até 80, 90, 100 anos, vamos viver mais o processo da morte, olhando e convivendo com ela.

Qual o conteúdo das conversas com alguém que sabe que vai morrer em breve?

No final, a essência de tudo são as relações, são as coisas simples. Parece piegas, mas é verdade: quais relações tive? O que foi importante? Tenho alguma pendência, preciso me desculpar com alguém? Será que trabalhei demais e não vivi relações com meus amigos e filhos? Tem muito mais a ver com o simples, com o essencial da vida. Nunca ninguém fala que o é mais importante da sua vida foi ter comprado um carro ou uma casa.

Então, falar sobre a morte antes de ter algum “contato” com ela é algo positivo?

Essa é questão. Temos que honrar isso. Tanto que esse movimento todo que a gente está fazendo essa semana é para dar visibilidade, é para falar “ei, acorda!”. Não é mórbido, é uma forma positiva, é inspirador. A morte coloca tudo em perspectiva. Eu não preciso esperar um resultado médico para fazer determinada coisa, posso praticar isso desde já. E pensar: “será que esse escolha que estou fazendo é importante, vou me arrepender?”. É uma oportunidade de se viver melhor. A morte é real, a gente vai morrer. Entre agora e até o dia que a gente morrer, já existe contado a quantidade de tempo que temos.

O que os interessados vão encontrar no evento que ocorre a partir do dia 24?

Diversas atividades, com diferentes formatos e conteúdo, justamente para olhar para morte de diferentes ângulos com atividades que atraiam diferentes públicos. Teremos conferência internacional, palestras, rodas de conversas, workshops, peças de teatro, cinema, cinema online e atividades para crianças. A procura está super alta. Em alguns eventos já tem até lista de espera.

Confira programação abaixo:

24 de setembro

20h: Abertura com Painel Pesquisa "O Brasileiro e Morte"| Caixa Belas Artes

25 de setembro

9h às 17h30: Workshop Zen Hospice Project | Espaço Taly Szwarcfiter
Durante o dia: Intervenções Urbanas - “Antes de eu Morrer” | Diversos pontos da cidade

26 de setembro

19h às 22h30: Conferência Internacional- A Boa Morte | Unibes

27 de setembro

14h às 16h: Workshop Doulas da Morte | The School of Life
14h às 16h: Roda de Conversas- Vamos falar sobre o luto? | Unibes
19h30: Vamos jantar e falar sobre a morte? | Beth Sala de Estar

28 de setembro

14h às 16h: Palestra “O Fim Como Princípio”, com Cris Guerra | The School of Life

29 de setembro

10h às 12h: Death Café Sampa | Sincep
16h: O Testamento Vital como ferramenta de autoconhecimento | Unibes
18h30: Teatro - Gandhi, com João Signorelli | Cemitério Primaveras
19h: Teatro “Fale Mais Sobre isso”, com Flavia Garrafa | Teatro Renaissance

30 de setembro

11h: Teatro Infantil e Familiar "A carruagem de Berenice" | Auditório Mube
20h30: Sala Online do Cineclube da Morte do documentário "A Partida Final" (Netflix) | Virtual

1º de outubro

10h30: Cineclubinho da Morte | Caixa Belas Artes
13h: Workshop “Lidando com nossas tarefas inacabadas para se viver plenamente”
20h: Palestra “O Valor e o Sentido da Vida” (R$ 185,00) | na Casa do Saber.

2 de outubro

19h30: Encerramento da semana - Cineclube da Morte | Caixa Belas Artes

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