"EUA tiveram prejuízos morais e financeiros"

Intervenção americana completa dez anos nesta quarta-feira; mais de 170 mil pessoas morreram vítimas da guerra

Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 levaram os Estados Unidos a travarem uma verdadeira guerra contra os seus possíveis inimigos. Em 20 de março de 2003, ainda tentando se recuperar do golpe violento, o país iniciou uma intervenção militar no Iraque, que deixou milhares de mortos – entre eles, cerca de 112 mil civis, segundo a IBC (Iraq Body Count, ou Contagem de Corpos no Iraque).

O resultado da guerra ainda é avaliado, mas, segundo especialistas, os Estados Unidos tiveram prejuízos financeiros, na casa dos trilhões de dólares, e morais, com soldados presos e processados por maus tratos, abusos e torturas. 

A principal justificativa para a guerra era a de que o Iraque mantinha em seu território armas de destruição em massa e apoiava grupos terroristas. A invasão teria como finalidade a busca deste armamento, além da implantação de um processo democrático no país. Dez anos depois, poucas mudanças podem ser vistas no país, segundo especialistas.

A guerra

O conflito entre os Estados Unidos e Iraque não teve aprovação da ONU (Organização das Nações Unidas), ao contrário do primeiro, em 1991, quando os Estados Unidos estavam sob o comando de George H.W. Bush, o pai. Na época, a intervenção ficou conhecida como a guerra do Golfo, "mas, no fundo, era contra o Iraque".

"A guerra teve aprovação do Conselho de Segurança da ONU e, naquele momento, decidiu-se que o objetivo era retirar o Iraque do Kuwait e fazer a zona de exclusão para que o Iraque não invadisse os países vizinhos", explicou Reginaldo Nasser, professor de relações internacionais da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo.

A segunda intervenção, em 2003, foi muito difundida nos Estados Unidos como uma "guerra preventiva" e também com alegações de que a primeira guerra foi 'mal resolvida", pois o responsável pelos problemas do Iraque, o líder Saddam Hussein, continuava no poder.

"Exemplo"

"A ideia era: 'pode ser que o país não nos ameace, mas pode estar tramando algo contra nós'", explica Nasser. Isso bastou para o apoio da maioria do Congresso norte-americano à guerra, mesmo sem a aprovação da ONU.

"Havia ainda uma ideia de que a intervenção contra o Iraque serviria como exemplo para o resto dos países do oriente", afirma ainda o professor, explicando que o conflito se tratava também de uma demonstração de poder dos Estados Unidos.

Resultados

Mais de 4 mil soldados americanos morreram durante a guerra. O líder iraquiano, Saddam Hussein, foi capturado em 13 de dezembro de dezembro de 2003 e condenado a morte. Ele foi executado em 30 de dezembro de 2006. No final de 2011, o último comboio de tropas americanas deixava o Iraque.

Para o professor, Obama mudou o discurso da era Bush, mas ainda há indícios que os Estados Unidos mantêm a mesma postura. "Obama manteve, em um primeiro momento, o mesmo secretário de Defesa do governo de seu antecessor. Isso indica uma permanência da doutrina estratégica e, no fundo, podemos entender que quem predomina nesse aspecto é o Pentágono", explica.

Os Estados Unidos ainda são investigados pelas denúncias de tortura e maus tratos. Cenas como as fotografadas nas prisões de Abu Ghraib, com soldados urinando, cometendo atos de humilhações sexuais e intimidando presos com cachorros, ainda não foram punidas.

Desfecho

"O governo do Iraque é agora mais próximo dos Estados Unidos. Mas isso não significa dizer que os grupos aceitem a presença norte-americana. Nesses dez anos, o quadro se alterou um pouco. Os EUA gastaram muito dinheiro. Mortes de inocentes ainda são apuradas. Tudo isso se configura em um desgaste moral do país", avalia.

As empresas privadas de segurança dos Estados Unidos aumentaram a presença no Iraque. "Oficialmente, existem menos soldados americanos. Mas, nas empresas, existem militares pagos", diz Nasser. "Fica difícil pelos princípios do direito internacional fazer um julgamento porque eles não fazem parte da força militar americana. Alguns os chamam de novos mercenários, mas ainda é mais sofisticado do que isso", completa.

O professor diz ainda que não se pode afirmar que a argumentação dos EUA de que implantaria um governo democrático no Iraque teve um desfecho positivo. "Agora tem eleição, mas a violência e o número de atentados continua muito alto".

"Se foi um tiro no pé ou não, não podemos afirmar. O que se sabe é que os custos foram altos. Tanto os econômicos, como o desgaste moral. Se a gente fizer um balanço geral desses dez anos, podemos afirmar que o antiamericanismo no país do Oriente Médio aumentou. Se os Estados Unidos queriam ser mais aceitos, é difícil afirmar que conseguiram", finaliza Nasser.

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