Para a internet, o Brasil é um país homofóbico

Essa é a opinião de 70% dos entrevistados de uma pesquisa; este mesmo percentual, porém, alega não se considerar uma pessoa homofóbica

Uma pesquisa realizada com internautas brasileiros revelou o quão paradoxo é o debate acerca da homofobia no Brasil. Segundo o levantamento, 70% dos internautas entrevistados afirmam que o país é homofóbico. O mesmo percentual, porém, nega ser homofóbico. 

“Nosso entendimento é de que parte desses 70% não percebem que suas atitudes e comentários são homofóbicos, porque não compreendem o conceito de homofobia”, avalia Felipe Schepers, COO do Opinion Box, uma das empresas responsáveis pela pesquisa. 

Apenas 14% dos entrevistados disseram ser homofóbicos. A pesquisa, no entanto, que levou em conta palavras-chave em publicações em redes sociais, revelou que 49% dos posts tinham termos considerados homofóbicos. 

“Nos surpreendemos com os dados que essas redes nos mostraram", afirma Luiz Temponi, co-fundador da Hekima, outra empresa que participou da apuração. 

"Em geral, utilizamos ferramentas de coleta e análise de dados para inteligência de negócio. Contudo, essas ferramentas também podem e devem ser levadas ao âmbito social, e suas aplicações utilizadas para compreender o discurso coletivo acerca de diferentes temas, como a homofobia."

Mais intolerância nas redes sociais 

Como a pesquisa foi realizada com duas linhas diferentes – entrevista e análise de postagens – foi possível encontrar resultados conflitantes. Ficou claro, por exemplo, que os internautas tendem a serem mais intolerantes nas redes sociais e apresentam um comportamento diferente quando entrevistados. 

“O questionário faz o respondente refletir sobre o assunto, o que aumenta a probabilidade de as pessoas darem respostas socialmente desejáveis, mas que não vão de encontro às suas reais opiniões, enquanto as redes sociais se caracterizam por ser um ambiente em que a espontaneidade prevalece”, explica Felipe Schepers, do Opinion Box. 

O levantamento deu como exemplo desta conclusão o caso do professor de pré-cursinho de vestibular Jonathan Chasko, que se vestiu de drag queen em uma aula de português no Paraná. O Portal da Band publicou uma entrevista com Jonathan, e a reação dos internautas valida a pesquisa: muitos não pouparam críticas ao professor. 

Na análise de posts feita pela pesquisa, mais de 90% dos comentários condenavam o fato. Quando entrevistados, porém, 64% dos internautas responderam que se sentiriam confortáveis caso descobrissem que o professor de seu filho é homossexual. 

grafico jonathan

“Os estudos, portanto, se complementam e confirmam que o Brasil é um país em que parte significativa da população é homofóbica”, acrescenta Schepers.

Outros resultados 

A consulta aponta ainda que, em relação aos homossexuais, mulheres e jovens tendem a ser mais tolerantes, enquanto homens e pessoas mais velhas menos. Nas redes sociais, isso se confirma: 55% das mulheres escreveram comentários que não foram considerados homofóbicos, enquanto que apenas 40% dos homens fizeram o mesmo. 

A pesquisa também questionou seus entrevistados a respeito da criminalização da homofobia. Para 59% deles, a homofobia deveria ser crime no Brasil. 28% responderam que não e 11% não souberam se posicionar. 

Sobre a adoção de crianças por casais formados por pessoas do mesmo sexo, 60% disseram que aceitam, enquanto 31% disseram que não e 9% não souberam responder. 

A respeito dos crimes de homofobia que aconteceram no país, 69% disseram achar os crimes um absurdo; 29% responderam que é preciso entender o contexto dos crimes; para 2%, todos eles provavelmente mereceram. 

Segundo o Relatório de Violência Homofóbica, de fevereiro deste ano, ao menos cinco casos de violência relacionados com a homofobia são registrados todos os dias no Brasil.

Questionamentos 

O levantamento também pediu que os entrevistados avaliassem algumas sentenças. Diante da frase: “A homossexualidade não é uma coisa natural e deve ser combatida”, 63% discordaram; 18% disseram ser indiferentes e 19% concordaram. 

No caso da afirmação: “Só é família a união entre homem e mulher”, 53% discordaram; 13% disseram ser indiferentes e 33% concordaram. 

Já diante da frase “TV não deveria exibir beijos gays e casais homoafetivos”, 43% discordaram, 18% disseram ser indiferentes e 39% concordaram. 

Por fim, os entrevistados foram convidados a se colocar na situação hipotética de ter o filho ou filha revelando ser homossexual e a refletir sobre qual seria a reação de cada um. 44% responderam que tentariam encontrar uma forma de ajudar e, se não fosse possível, fariam de tudo para aceitar; 41% disseram ser totalmente naturais e não mudariam nada na relação com o filho (a); 10% responderam que iriam buscar ajuda médica e/ou espiritual até conseguir trazer o filho (a) ‘de volta’; 3% mencionaram que seria muito difícil aceitar e provavelmente iriam romper relações com ele/ela; e 2% disseram que seria o fim de suas vidas.

Como a pesquisa foi feita 

Foram duas frentes de análise: uma pesquisa, feita pelo Opinion Box, com 1.433 internautas de ambos os sexos, todas as classes sociais e regiões do país; e um monitoramento realizado nas principais redes sociais, com 53.099 posts, que foram analisados pela equipe da Hekima por fazerem menção a termos como: homofobia, homofóbico, lesbofobia, lesbofóbico, lgbtfobia, lgbtfóbico, transfobia e transfóbico, além de homossexualidade, homossexualismo, homoafetivos, homoafetividade e homossexual. 

pesquisa

A margem de erro da pesquisa é de 2,6% e o intervalo de confiança é de 95%.

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