A corrupção e a crise de credibilidade do PT

Especialistas em política analisam os caminhos do partido, que vive problemas sem precedentes com sua imagem

“Não estou numa fase muito boa”. A confissão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de dita sobre si mesmo, também ilustra a atual situação do Partido dos Trabalhadores, que vive uma falta de credibilidade sem precedentes desde sua fundação, em 1980.

Não há, no momento, um nome forte que possa assumir o papel de porta-voz do PT e consiga driblar a crise de imagem da legenda.

Além do desânimo do mítico Lula, a presidente da República, Dilma Rousseff, tem evitado se expor após  os protestos que tomaram conta das cidades brasileiras; o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, tem índices de popularidades baixos; Eduardo Suplicy, que conseguia agradar até a alguns detratores do partido, perdeu o posto no Senado para José Serra (PSDB); e Alexandre Padilha foi derrotado de maneira estrondosa a disputa eleitoral pelo tucano Geraldo Alckmin, mesmo com a crise hídrica que assola a capital paulista.

Com o esquema de desvio de dinheiro na Petrobras descoberto pela Operação Lava Jato, a oposição tem aproveitado para colar o tema corrupção no PT, em um discurso que se confunde com os problemas econômicos que o Brasil enfrenta, embora eles não sejam majoritariamente causados pela histórica falta de ética na política – que, por sua vez, também não é exclusividade petista.

Na análise do professor da ESPM Victor Trujillo, especialista em marketing político, o descontentamento maior da população se deve ao aperto de cinto que já é sentido no Brasil desde o ano passado.

“Olhando para essa crise de imagem que o PT está enfrentando, é preciso, em primeiro lugar, lembrar o seguinte: não é apenas a corrupção. Uma parte disso tem a ver com o momento econômico que o país está vivendo”, analisa Trujillo. “Se o poder de compra não tivesse sido reduzido, se a eletricidade e a gasolina não tivessem aumentado, isso ficaria no campo moral, no campo da ética, e a discussão seria outra”, afirma o especialista em política.

Já para a cientista política Jacqueline Quaresemin de Oliveira, da FESPSP, a crise ética tem papel central na crise de credibilidade enfrentada pelo partido da presidente Dilma. “O  PT vive a pior crise desde o seu nascimento. Na verdade, as questões na politica econômica pós-crise de 2008 poderiam ser minimizados se o partido no governo não tivesse o agravante das denúncias da corrupção envolvendo estatais e principalmente a Petrobras, que tem quase uma identidade nacional”, pontua.

Sem minimizar o fato da crise econômica, ela critica a postura da  oposição, que em sua opinião tem uma atuação fraca.  “Centrar o debate só na corrupção parece que é só um embate ideológico contra o PT. Não deveria ser desse modo. Fazer isso é perder discussões sérias como a reforma política, de abranger aspectos amplos, como a própria economia e problemas sociais.”

O especialista em marketing Victor Trujilo ressalta que relacionar corrupção e crise econômica é um estratégia inteligente, já que a associação parece lógica à população.

“A oposição está construindo essa lógica, como a propaganda do PSDB que foi ao ar dizendo: “Olha, a crise está aí porque roubaram. Isso quem está dizendo é a oposição e encontra aderência na população, porque é um ajuste fácil para o eleitor”, diz o professor.

Fim do PT como partido está longe

Apesar da grave crise que enfrenta, na opinião de Jacqueline Quaresemin, o PT está longe de ruir como legenda. “Não dá para dizer que o  PT está acabado, isso é um discurso rasteiro. Os partidos estão estruturados, o PT é o segundo maior partido no país, e assim como os outros é importante para a democracia jovem do Brasil. O fato de se atravessar uma crise não significa o fim de alguma coisa. É um momento que você se reposiciona ou tende a agravar a crise. No caso do PT, deve haver um esforço interno para poder ressignificar todo este processo.”

Para a cientista política, além de dialogar melhor com a base aliada, o PT e Dilma têm que retomar a comunicação com o país todo.

“Isso é extremamente importante. O diálogo do governo tem que ser com a população, ainda que os partidos representem os interesses dela. Dilma tem que fazer mais aparições públicas, falar, mesmo vaiada, mesmo criticada”, pontua a cientista política. “É importante que o governo assuma, se aproprie do processo de crise e ainda, enfim, retome a questão do crescimento econômico, que está exigindo estas medidas que foram adotadas e votadas, que polemizam com os movimentos sociais.”

O professor Victor Trujilo, porém, acredita não haverá melhora na imagem do PT antes que medidas contra a crise econômica surtam efeito. “A solução (para o partido) passa por minimizar os impactos negativos no bolso do eleitor, a perda da qualidade de vida e poder de compra. Depois disso é possível o governo recuperar a sua imagem. Essa solução não acontece em curtíssimo prazo. É uma crise de imagem que tem um caminho longo”, opina.

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